Ser executivo-chefe de uma empresa é uma grande responsabilidade, que demanda muito preparo e dedicação – especialmente se ela fizer parte do Ibovespa, que reúne as principais companhias da bolsa. Por isso mesmo, é um cargo que não costuma ser ocupado por pessoas tão jovens. No outro extremo, a rotina extenuante de um CEO e as tecnologias em constante transformação também criam desafios para que executivos com mais idade continuem administrando o dia a dia das empresas.

Levantamento feito pelo Valor mostra que, entre as 70 companhias do Ibovespa, a idade média dos CEOs é de 53,6 anos. Apenas duas companhias têm executivos com menos de 40 anos: MRV e Cyrela. Em ambos os casos, os CEOs são herdeiros dos fundadores. Na outra ponta, apenas quatro companhias têm executivos com 70 anos ou mais, sendo três delas estatais. Nos Estados Unidos, a idade média dos CEOs do índice S&P 500 é de 58 anos, segundo levantamento do “Wall Street Journal”.

José Isaac Peres, da Multiplan, com 79 anos, é o mais velho da lista brasileira. Depois estão Roberto Castello Branco, da Petrobras, com 75 anos; Rubem Novaes, do Banco do Brasil, com 74 anos; e Benedito Braga Junior, da Sabesp, com 72 anos. Cledorvino Belini, que deixou o comando da Cemig no dia 13, tinha 70 anos. Ele foi substituído por Reynaldo Passanezi Filho, de 54 anos.

Peres, da Multiplan, diz que sua agenda é puxada, mas que não há uma rotina fixa e que o trabalho não o aborrece. “Gosto de criar ideias, desenvolver projetos, contribuir para o setor da construção civil. Acho que meu ritmo de trabalho até aumentou nos últimos anos. Quando a gente faz aquilo que gosta, não é um sofrimento.” Mesmo perto de completar 80 anos, ele não pensa em parar, apesar de admitir que já existem profissionais habilitados para sucedê-lo no comando da empresa, se for preciso. “Eu gosto do que faço. O trabalho, para mim, é uma cachaça. O desafio é um motor para a mente, mas também para o corpo.”

Apesar de dormir tarde, por volta da uma hora da madrugada, Peres diz que tem uma rotina de exercícios físicos e que está sempre com os exames médicos em dia. “Sou hipocondríaco.” Ele conta que, ao longo de quase 60 anos de carreira, já passou por pelo menos dez crises graves na economia brasileira. “O bom marinheiro é aquele que está acostumado com as tempestades”, diz o executivo, que gosta de velejar pelos mares do Rio de Janeiro nos fins de semana.

Peres, que fundou sua primeira empresa aos 22 anos, tem três de seus filhos trabalhando com ele na Multiplan. Qualquer um deles, na sua opinião, pode se tornar CEO um dia. “Eles começaram aqui do zero, aprenderam todo o be-a-bá.” Mesmo assim, diz que se um dia decidir sair da diretoria e ir para o conselho de administração, continuará auxiliando na condução da companhia. “Serei sempre um farol ajudando nas noites de tempestade.”

Novaes, do BB, também diz que sua ampla experiência, tanto na vida acadêmica como nos setores público e privado, o ajuda bastante. “Permite distinguir o essencial do irrelevante e liderar pelo respeito. A experiência também ensina que o fundamental é saber escolher bem seus liderados e motivá-los com os incentivos corretos”, disse ao Valor em uma entrevista concedida via WhatsApp. Contemporâneo do ministro da Economia, Paulo Guedes, durante o curso de doutorado na Universidade de Chicago, ele lembra que o amigo – que tem 70 anos – “demonstra energia e lucidez imbatíveis”.

Por outro lado, o presidente do BB admite que não tem conseguido manter uma rotina regular de exercícios e que, a partir de uma certa idade, viagens em demasia e uma sucessão de noites mal-dormidas pesam bastante. Sobre estar em dia com os avanços tecnológicos, ele afirma que é preciso saber escolher e tirar proveito de especialistas. “Estou na área bancária e um banco é cada vez mais uma empresa de tecnologia que presta serviços e corre riscos bancários. O importante é reconhecer este fato e agir em consequência”, afirma Novaes.

A Sabesp também está na lista das empresas com CEOs mais experientes. Benedito Braga tem uma rotina bastante puxada, que inclui reuniões com investidores e viagens internacionais, em meio às discussões do novo marco regulatório do saneamento e uma possível privatização da companhia. Mesmo assim, ele diz que não se sente cansado. “Já estou acostumado a dormir pouco. Tenho uma rotina de exercícios físicos, que é fundamental. Os 70 anos hoje são os novos 60. Não vou me aposentar nunca”, garante.

Para ele, um das grandes vantagens de ter mais experiência é saber lidar com as pessoas, incluindo gerações diferentes. “Há muitos jovens que a gente precisa orientar, no sentido de conter um pouco o ímpeto, porque às vezes eles querem seguir só suas próprias ideias. Mas não é uma prerrogativa só dos jovens, algumas pessoas mais velhas também têm essa capacidade de gerar conflitos.” Questionado se já aprendeu algo com os mais jovens, como o uso de redes sociais, por exemplo, Braga lembra que em 1968 começou a utilizar os primeiros computadores. “Eu tenho Instagram, Facebook, até WeChat. Eu sou um camarada muito atualizado.”

Sobre a perspectiva de continuar no comando da Sabesp, pelo menos até o fim do atual governo de João Dória, o executivo diz que pretende seguir trabalhando na estatal, “a menos que Jesus me chame antes”.

No outro extremo, Rafael Menin, da MRV, tem 39 anos e é um dos CEOs mais novos do Ibovespa. Ele assumiu o cargo em 2014, quando tinha apenas 33 e seu pai, Rubens Menin, fundador da construtora, deixou o comando executivo e foi para o conselho de administração. Ele diz que não houve tanta dificuldade na transição, porque estava na companhia desde os 18 anos. “Não houve nenhuma ruptura. É lógico que é uma responsabilidade muito grande, mas eu fui subindo um degrauzinho de cada vez na empresa, me preparando para a função.”

MRV e Cyrela são também as únicas duas companhias com uma estrutura de dois co-CEOs. Rafael conta com a parceria do primo Eduardo Fischer, que é sete anos mais velho. “Nós temos um perfil complementar, é uma dobradinha que deu certo no momento em que assumimos e que vem dando certo até agora.” Ele diz que espera continuar à frente da construtora por muitas décadas ainda. “A gente aprende um pouco a cada dia. Um executivo, independentemente da idade, não pode se colocar na posição de achar que já sabe tudo. Hoje eu me sinto mais preparado do que quando assumi, mas acredito que ao longo desses anos eu acertei mais do que errei.”

O especialista Jorge Maluf, sócio sênior da consultoria de capital humano Korn Ferry, corrobora as visões expressadas pelos executivos ouvidos aqui em relação aos prós e contras das diferentes gerações. Ele aponta que, além das características próprias de cada idade, o perfil ideal do CEO também depende do momento vivido pela companhia. Uma empresa nova, em fase de rápido crescimento e uso intensivo de tecnologia, por exemplo, precisa de um executivo mais jovem. Já uma companhia mais antiga, que passa por um momento de crise ou reestruturação, pode se beneficiar de um comandante mais experiente.

“Os jovens podem ter dificuldade em lidar com o ambiente político das organizações, em alinhar os interesses de diferentes grupos. Já o grande desafio para um executivo mais experiente é se manter aberto à inovação, abraçar novas tecnologias. A tendência é replicar estratégias que deram certo antes, mas não se pode ficar refém do passado. Além disso, o tempo de resposta a mudanças entre as pessoas mais velhas tende a ser um pouco mais lento”, comenta.

Das companhias do Ibovespa, apenas nove adotam limites de idade para a diretoria em seus estatutos. Os mais baixos são de Totvs e Itaú Unibanco, com um teto de 62 anos. No primeiro caso, o CEO da companhia do setor de tecnologia, Dennis Herszkowicz, tem 45 e, portanto, ainda está longe de atingir o limite. No caso do Itaú, no entanto, Candido Botelho Bracher completa 62 anos agora em 2020. Procurado para comentar o assunto, o banco preferiu não se pronunciar.

Maluf comenta que a lógica de estabelecer um limite de idade para os CEOs no estatuto é forçar uma renovação, mostrando para executivos do segundo escalão que eles têm expectativa de assumir o comando em um prazo concreto e, assim, evitando que busquem oportunidades em outras companhias. “O tempo de permanência dos CEOs no cargo tem caído. Seja como for, independentemente de ser mais novo ou mais velho, o importante é garantir que o grupo de liderança possua competências complementares, congregando experiência e juventude”, comenta o especialista da Korn Ferry.

A formação mais comum entre os CEOs das 70 companhias do Ibovespa é engenharia (40,3%), seguida de administração de empresas (31,9%) e economia (16,7%). Entre os executivos, há quatro estrangeiros, nenhum negro e nenhuma mulher.

Fonte: https://valor.globo.com/carreira/noticia/2020/01/30/ceos-com-menos-de-40-sao-raros-no-ibovespa.ghtml

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