A dura jornada rumo a longevidade

Guilherme Hummel, Coordenador Científico – HIMSS@Hospitalar |

28 Mai, 2020

Longevidade pode parecer um tema espinhoso durante uma pandemia que atinge os mais idosos. Talvez seja, mas também pode ser o melhor momento para repensarmos a nossa saudabilidade e, principalmente, a nossa finitude. As imagens chocantes da covid-19, e a experiencia dolorosa daqueles 5% ou 10% que passam pelas UTIs, não serão esquecidas por gerações, principalmente pelo grupo 60+. Pouco importa se a maioria dos longevos teve boa recuperação após a terapia intensiva. Quando a imagem da traqueostomia invasiva cresce na tela nos sentimos irmanados na impotência do paciente. Parece que tentamos ‘respirar junto’ com ele. Isolados em casa, sem vestígio de alguma data final, sem vacina e com a cloroquina infernizando a paciência, é difícil deixar de avaliar o impacto da envelhescência em cada um de nós, ou seja, a dificuldade de aceitar uma longevidade crescente com uma qualidade de vida decrescente. Na aflição, a imaginação flerta com as circunstâncias e passamos a pensar que somos o próximo usuário do hospital de campanha, já nos vendo com tubos e bombas tentando jogar vida em nossos pulmões.  

Na envelhescência (algo além dos 45 e antes dos 65 anos) começamos a nos sentir mais perto do fim e mais longe dos projetos de longo prazo. Como na adolescência, já não somos ‘mais daqui e nem dali’: revivemos um período de indefinições provenientes das alterações do corpo e da mente. Já sabemos que a idade física mudou, que a juventude se foi, mas ainda não nos percebemos velhos. Vivemos na turbulência do ageless. Como explica a psicanalista Sylvia S. G. Soares, em sua obra “Envelhescência. Um fenômeno da Modernidade à Luz da Psicanálise” (2012): “…na envelhescência, o corpo, que durante anos conservou-se dentro de uma certa estabilidade, começa enviar sinais de declínio; vai sofrendo periodicamente pequenos abalos. As mudanças são cada dia mais acentuadas e perceptíveis a olho nu. A forma física refletida no espelho vai distanciando-se da efígie, que antes era protótipo da representação de si mesmo”. No fundo, a fase da envelhescência é a preparação para a ancianidade. Ela parece nos cobrar respostas que na idade avançada já estão respondidas. No flagelo da covid-19, em pleno isolamento social, a ideia de uma esperança menor de vida para o tempo que nos resta nos convida a reflexão. 

Seremos convencidos pelo surto que haverá mais brevidade na vida? Embora seja cedo para conclusões definitivas, surgem argumentos que podem estabelecer novas regras para a finitude do ser humano pós-pandemia. É provável que um recém-nascido hoje tenha menor expectativa de vida daquele nascido a quatro meses atrás, antes, portanto, da covid-19. Os pesquisadores Patrick Heuveline e Michael Tzen da UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles), desenvolveram métricas objetivando a comparação da mortalidade entre os diferentes países. O resultado do estudo “Beyond Deaths per Capita: Three CoViD-19 Mortality Indicators for Temporal and International Comparisons”, publicado em 5 de maio último pela medRxiv, mostra, entre outras coisas, o declínio na expectativa de vida causado pela pandemia. Uma criança que nasça no Brasil em maio de 2020, por exemplo, viverá 9,7 meses a menos do que aquela nascida antes do surto. Ainda segundo o estudo, na Bélgica, um dos países em que a doença mais danos causou, a desaceleração é clara: os belgas levaram mais de 5 anos para atingir os atuais 80,7 anos de expectativa de vida, sendo que em 2 meses de surto perderam 12 meses, voltando aos níveis de 2014 (o país tem um dos mais altos níveis de CCDR – Crude CoViD-19 Death Rate). A pesquisa da UCLA mostra ainda que a Espanha passaria dos atuais 83,6 para 82,9 anos de esperança de vida (nove meses menos). Assim como esse estudo, dúzias de outros começarão a surgir (baseados nos indicadores de mortalidade de cada país), mostrando a real possibilidade de vivermos menos a partir de agora. Mesmo sendo cedo para cravarmos novos protocolos de expectativa de vida, que dependem de outras variáveis, como o tempo para a surgimento de medicamentos terapêuticos ou mesmo da vacina, a hipótese da redução do tempo médio de vida passou a ser real. 

A pandemia é solitária, e pode ser assustadora para a envelhescência. Como se não bastasse, a força pandêmica está longe de ser comparada a descomunal transformação demográfica em curso, também conhecida como envelhecimento global (global aging). Em 2050, os idosos nos EUA chegarão a 22%, sendo que não eram 12% em 2000. Na Europa serão 28% e no Japão 38%. A longevity economy vai exigir inúmeras estratégias novas para se contrapor a força do World 4.0. As plataformas de artificial intelligence, robots e inúmeras outras inovações digitais farão com que a empregabilidade seja reavaliada em todos os seus vetores. Em 2030, por exemplo, as previsões indicam que a força de trabalho diminuirá para quase zero nos EUA, enquanto no Japão e alguns países da Europa os níveis de contratação de mão de obra estarão entre 1,0 e 1,5% ao ano. Não é à toa que vários outros modelos de trabalho estão emergindo, como, por exemplo, a economia compartilhada. A crise do coronavírus chegará ao fim em algum momento, mas o envelhecimento populacional permanecerá. O Brasil, segundo o IBGE, terá em 2060 perto de 25% da população acima dos 65 anos, mostrando que ser envelhescente no século XXI será cada vez mais desafiador, principalmente nos rincões mais desiguais do mundo, como o nosso.

Por outro lado, os meios de comunicação e as mídias sociais transmitem incansavelmente mensagens de “voltar o tempo”, “parecer mais jovem”, “sublimar a idade”, etc. Nada contra, mas a envelhescência não busca só longevidade: o prato da balança precisa se inclinar para uma saudabilidade física e mental notável, permitindo sermos ‘viáveis como humanos’ e não só como vegetais. Envelhescência dá trabalho e impõe dúvidas: estamos preparados para viver muito se houver alto risco de desenvolvermos doenças cerebrais, deficiências físicas, ou insuficiência econômica que gere dependência de terceiros (não menos aflitos)? Não há respostas fáceis. Mas talvez a melhor maneira de passar pela envelhescência é manobrá-la antes que ela chegue. Ser um longevo afinado é uma tarefa que começa antes que alguma  caduquice nos abrace, e isso só é possível se estivermos dispostos a empreitar duas grandes escolhas: (1) elegermos uma vida saudável antes que ela deixe de o ser; e (2) nos esforçarmos para viver o suficiente, mas sempre lutando diligentemente para vivenciar cada minuto dessa existência. Vivenciar tanto e a tal ponto que seja prescindível estar na vida por muito mais tempo em condições precárias. Viver é existir num determinado corpo. Vivenciar é permanentemente experimentar a vida, aprender e arriscar com ela e se lambuzar com cada fragmento que ela venha nos proporcionar. Pessoas que apenas vivem não vão se adaptar a envelhescência, principalmente porque esta exige um plano, um norte e muita disciplina. Idosos com longevidade plena são aqueles que deixaram de prestar atenção na sua envelhescência, pois já encontraram respostas, já vivem em concórdia com sua idade e a morte é tão somente uma curva. 

Ezekiel Emanuel é médico e chefe da disciplina de ética médica e políticas de saúde da Universidade da Pensilvânia, sendo autor de vários livros, entre eles “The Ends of Human Life”. Em 2014, Emanuel escreveu um “escandaloso” artigo no The Atlantic intitulado “Porque espero morrer aos 75 anos”. Em agosto de 2019, já com 62 anos, ele concedeu entrevista a MIT Technology Review. Pergunta: Por que num mundo que sonha em chegar bem aos 100 anos, o senhor quer viver somente até os 75? Resposta: “Eu acho que existe uma certa obsessão coletiva em ter uma vida extremamente longa. Acredito que não devemos nos preocupar tanto com a quantidade de anos, mas com os atributos deles. Nosso objetivo como seres humanos não deveria ser viver mais, mas viver em completude. Precisamos mudar esse foco. Os 75 anos? Bem, é que a partir desse ponto todas as nossas habilidades começam a decair naturalmente. A criatividade não é mais a mesma. O corpo não responde mais como outrora e aos poucos os processos mentais ficam naturalmente lentos. Nossos amigos e familiares se vão, sendo pouco prazeroso passar por todos esses acontecimentos. A ideia do artigo foi provocar e, principalmente, chamar atenção de que não é tão fácil assim ter 90 ou mais anos”, explicou Emanuel. Certamente que a grande maioria discorda desse ‘hemisfério intelectual’ do médico, pois viver mais passou a ser uma compulsão no século XXI. Emanuel desafia o senso comum lembrando que a grande maioria dos longevos não consegue alcançar uma envelhescência plena porque ela é difícil, exige muita determinação, carece de planejamento e as iniciativas devem começar cedo. O resultado é que grande parte fica pelo caminho, sofrendo do flagelo de uma longevidade inócua, sofrida e irrelevante. 

A Covid-19 poderá afetar as elegias que consagraram neste século as expectativas de vida. Talvez pela primeira vez na pós-modernidade uma geração está sendo capaz de perceber claramente o que é ser velho e solitário. A quarentena nos propiciou ‘estarmos’ como idosos, sentindo solidão, reclusão e o gosto da finitude. Essa fase nos fará um ser humano melhor? Ninguém sabe. Mas pelo menos teremos a chance de experimentar algum tipo de ‘senilidade’ e nos prepararmos mais na envelhescência. Nossa desforra contra a decrepitude do corpo e da mente sempre será vivenciar nossas últimas fases etárias com apogeu e plenitude. E se o leito de UTI nos alcançar, pode desaparecer o ar, mas não aparecerá o arrependimento. 

Guilherme S. Hummel
Coordenador Científico – HIMSS@Hospitalar Forum 
EMI – Head Mentor

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