Eduardo Costa MD MSc PhD, Imunoalergia UERJ, ASBAI, Instituto Unimed Rio, Inlags Academy

A versão final do artigo francês com 1.061 casos de Covid19, tratados com HCQ+AZI foi publicada.

Como a controvérsia continua e, agora, principalmente se ela é ou não útil em casos leves, fiz um resumo com breve analise pessoal desse estudo que é observacional de uma coorte com 1.061 pacientes de Covid19, sendo 95% casos leves, tratados com Hidroxicloroquina (HCQ) e azitromicina (AZI) em cenário de vida real (não foi um estudo controlado e randomizado, o ideal para analisar eficácia e segurança para uma nova indicação de tratamento).

Fizeram HCQ por até 10 dias + AZI 5 dias.

A terapia não foi supervisionada, mas fizeram dosagem no sangue da HCQ para controle do uso e nível terapêutico.

Todos dosaram eletrólitos e fizeram ECG antes e fizeram ECG no 2o dia em parte dos pacientes (nos que julgaram ser indicado).

Drogas que prolongam intervalo QT no ECG ou diuréticos depletores de potássio não indispensáveis, foram suspensos, pois aumentariam o risco de arritmia.

Idade média dos pacientes = 43,6 anos com DP=15,6 (não eram muito idosos).

Do total, apenas 9 tiveram prolongamento do QTc. Nenhum teve prolongamento grande para suspensão ou arritmia. Outros eventos adversos sem gravidade em 2,4% dos pacientes, sendo a diarreia o mais frequente.

O tratamento se mostrou seguro, COM TODOS OS CUIDADOS PREVIOS DESCRITOS ACIMA

A maioria, 91,7% dos pacientes (lembrando que 95% do total tinham doença leve) tiveram “bom desfecho clinico” = não internaram por mais de 10 dias ou não foram para CTI ou não morreram. Eram mais novos, eram menos graves e tinham menos comorbidades do que os 8,3% que tiveram pior evolução clínica.

Cabe aqui a pergunta:

Isso é muito diferente do que ocorre na população geral com COVID19, sem o uso de cloroquina+azitromicina?

OU NÃO É, OU PODE SER UM POUCO MELHOR.

Como dito, 95% do total de 1.061 pacientes tinham doença leve. Apenas 0.9% foram para o CTI, 0.75% morreram.

Seria necessário ter um braço semelhante (em número e pouca gravidade=95% leves) de pacientes para comparar esses desfechos. Só um ensaio clinico randomizado permite comparar de forma adequada para concluir que esse tratamento foi melhor.

 

A comparação no estudo em questão se dá com outras series de casos, de pacientes de outras populações, onde a genética, o meio ambiente/alimentação e costumes, além dos cenários de tratamento, são diferentes. Assim essa comparação só pode sugerir e não concluir.

Os que tiveram pior desfecho clinico eram mais velhos (media 69anos x 42anos), tinham escores de gravidade maior e tinham mais comorbidades, sendo doença coronariana, HAS e Diabetes as principais (pela analise multivariada, que “isola” a influência de outros fatores), e dentre medicamentos em uso, os IECA e betabloqueadores, os mais importantes (analise multivariada).

Os 8 que morreram e usaram HCQ, eram mais velhos e tinham score de gravidade maior e pneumonia associada. Morreram por insuficiência respiratória e não morreram por arritmia.

Em suma, morreram os mais velhos e com mais comorbidades. A HCQ não fez diferença para esses.

Ele também cita que dentre os que tiveram desfecho desfavorável, quase 1/3 tinham nível baixo de HCQ no sangue, isso tende a sugerir que a falta do tratamento teria a ver com o desfecho ruim, mas é uma afirmação tendenciosa.

Isso teria que ser analisado na análise multivariada para ver se essa variável estava realmente associada ao desfecho ruim, independente de outras como idade avançada, maior gravidade inicial e comorbidades.

Por que não a fizeram ou, se a fizeram (o que é provável), porque não apresentaram o dado?

Finalizam o estudo citando limitações de dados para alguns pacientes (não cita quantos), mas não cita as limitações intrínsecas de um estudo de serie de casos, observacional, não comparativo e randomizado.

E finalmente afirma que (tradução literal do texto): “com base em nossa experiência, consideramos razoável seguir as recomendações feitas nos países asiáticos para o controle de COVID-19, principalmente na Coréia e na China, que consistem em testes iniciais no maior número possível de pacientes e tratá-los com medicamentos disponíveis. Essa estratégia produziu resultados muito melhores do que em países onde nenhuma política ativa foi implementada fora da contenção.

Na China, os medicamentos recomendados foram principalmente HCQ, mas também interferon α, lopinavir, ritonavir e umifenovir, na Coréia, os medicamentos foram lopinavir / ritonavir e cloroquina”.

Ou seja, testar, confirmar os casos de Covid19 para usar os medicamentos, que não foram só cloroquina. Não os usar indiscriminadamente, como foi infelizmente propagandeado.

Em resumo, precisamos de estudos adequados (ensaios clínicos controlados) para analisar tratamentos.

 

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