O papel dos planos de saúde durante a pandemia e depois dela

Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Flávia Tanaka e Wilson Vieira Junior
26 de Maio de 2020

É hora de refletir sobre que modelo teremos na saúde suplementar no mundo pós-coronavírus

Com a pandemia do novo coronavírus e sua principal medida de contenção, o isolamento social, a população brasileira tem, naturalmente, evitado buscar atendimentos de saúde, seja para realizar uma consulta ou exame de rotina, um tratamento continuado, ou até mesmo uma situação de urgência ou emergência. A redução na utilização dos serviços de saúde já vem sendo relatada por diversas entidades representativas de prestadores de serviços, que apontam para uma redução de aproximadamente 50% na busca por atendimentos eletivos e ociosidade de leitos hospitalares. Só que esse comportamento preocupa, pois além de estarem sujeitas à covid-19, as pessoas estão também sujeitas ao agravamento de doenças preexistentes, afetando a saúde, individualmente, e o sistema de saúde, coletivamente.

No Brasil, 47 milhões de pessoas possuem um plano de saúde, o que significa que o setor de saúde suplementar é responsável pelo atendimento de cerca de 24% da população brasileira. Com o argumento da necessidade de medidas para que possam enfrentar o grave cenário, as operadoras de saúde vêm, desde o início desta crise, encaminhando pleitos ao órgão regulador para flexibilização de regras, liberação de ativos, postergação de prazos para garantia de atendimentos, entre outros. Tais pleitos, vale lembrar, são pautas antigas, que surgem de forma recorrente na mídia, no Legislativo e na ANS (Agência Nacional de Saúde).

No restante do mundo vemos iniciativas do setor privado de saúde se aliando ao governo ou unindo esforços para prestar auxílio à sociedade. No Reino Unido, a ABI (Association of British Insurers) declarou apoio ao sistema público de saúde (o NHS) e expandiu seus serviços de atendimento virtual e tratamento continuado, em especial para pacientes com câncer e para o acompanhamento da saúde mental da população, afetada pela situação de isolamento social. Nos Estados Unidos, onde não há um sistema universal de saúde, algumas seguradoras abonaram a cobrança de coparticipações relacionadas ao diagnóstico e tratamento das infecções por coronavírus, em um movimento de preocupação com seus clientes, para que não deixassem de buscar atendimento diante de possível limitação de capacidade de pagamento, enquanto outras empresas fizeram doações para desenvolvimento de estudos e fabricação de insumos para o combate à doença.

E no Brasil, que movimento observamos do setor de saúde suplementar?

No cenário de pandemia, uma pesquisa que realizamos com beneficiários de planos de saúde mostrou que não houve a percepção de uma intensificação da comunicação das operadoras de saúde com seus clientes. As informações foram obtidas por um questionário online, elaborado com uma plataforma virtual. O link foi divulgado em redes sociais entre os dias 9 e 12 de abril, quando o Brasil já contabilizava 20.000 casos confirmados de covid-19. Os resultados completos da pesquisa serão divulgados em artigo a ser publicado em breve.

Diante da expectativa de perda de beneficiários, com a crise econômica que se desenha, não seria este o momento para as operadoras fidelizarem seus clientes mostrando uma boa assistência à saúde?

Por ora, cabe mencionar que o levantamento feito com 206 beneficiários de planos de saúde demonstrou que 44% dos entrevistados receberam algum contato de sua operadora sobre cuidados em saúde relacionados ao coronavírus, sendo que apenas quatro relataram ter recebido contato telefônico com atendimento mais personalizado. Os demais informaram contato com informações generalizadas por SMS, WhatsApp ou e-mail, ou acessaram o portal da operadora em busca de informações sobre prevenção, sintomas e o que fazer em caso de suspeita de contaminação.

Ao serem indagados acerca da principal fonte de informação sobre a pandemia de covid-19, apenas 2% dos respondentes relataram buscar informações no portal ou nos canais de relacionamento da sua operadora de planos de saúde, o que aponta para um baixo grau de confiança e reforça a falha de comunicação na relação operadora-beneficiário.

O levantamento realizado aponta para um fato: o enorme vazio existente na comunicação entre as operadoras e seus beneficiários, em especial no que diz respeito à comunicação em saúde.

Neste momento, as operadoras dispõem de todas as ferramentas necessárias para realizar uma boa gestão de saúde populacional de suas carteiras — contato de seus beneficiários, histórico de acompanhamento continuado e de doenças crônicas, identificação de quem são as gestantes em fase de pré-natal, etc. — e têm condições de prestar uma assistência adequada, com foco na saúde do indivíduo, a fim de evitar complicações futuras que gerem necessidade de utilização de serviços mais complexos, com custos mais elevados, e de forma a cuidar para que a população mais vulnerável mantenha-se saudável e assim menos sujeita às complicações derivadas da pandemia. Mas quantas estão se preocupando em buscar ativamente seus usuários para cuidar de sua saúde? Não seria essa uma função importante de um “plano” de saúde?

Diante da expectativa de perda de beneficiários, com a crise econômica que se desenha, não seria este o momento para as operadoras fidelizarem seus clientes mostrando uma boa assistência à saúde? Afinal, embora se preveja um movimento de saída do setor por questões financeiras, há de se convir que, em uma crise sanitária, a última despesa a ser cortada pelas pessoas seria justamente a garantia de atendimento médico e hospitalar caso necessário.

Importante atentar para as possíveis externalidades positivas que surgem em situações de crise e que podem gerar importantes mudanças de paradigmas. Por exemplo, o movimento de se evitar a ida ao pronto-socorro em situações clínicas que não se traduzem em necessidades de urgência ou emergência pode ser um comportamento que vai ao encontro de um modelo de atenção à saúde com fortalecimento da atenção primária, mais eficaz e resolutivo em termos de resultados em saúde. Outro movimento positivo é a possibilidade de acesso à assistência à saúde a distância (teleconsultas, telemedicina). Esses novos movimentos podem gerar impactos positivos para o setor e a sociedade como um todo, na medida em que desafogam os hospitais e prontos-socorros, e, consequentemente, geram menos riscos à saúde da população e reduzem a sobreutilização de procedimentos.

É hora de refletir sobre que modelo de atenção à saúde teremos na saúde suplementar no mundo pós-coronavírus. E agir. Pois outras pandemias virão.

Flavia Tanaka é especialista em regulação de saúde suplementar e especialista em administração pública pela FGV-Rio (Fundação Getulio Vargas).

Wilson Vieira Junior é especialista em regulação de saúde suplementar e mestre em saúde pública pela ENSP-Fiocruz RJ (Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz).

Os artigos publicados no nexo ensaio são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do Nexo. O Nexo Ensaio é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional e internacional.

 

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