Por: Paulo Marcos Senra Souza

Os casos de sucesso na gestão dos recursos da saúde evidenciam a habilidade de dar respostas rápidas com a utilização dos recursos disponíveis na cadeia de valor, da qual fazem parte diversos atores da saúde. Estes casos apontam que o planejar e o executar não são tarefas distantes, nos momentos de crise. Ambos ocorrem de forma concomitante, e requer dos gestores, atitude única numa situação de “fazejamento”.

O planejamento traz como definição intrínseca a questão do médio e longo prazo. Mas em momentos de crise ou pandemia o conceito de fazejamento” traz o imediatismo e a urgência para solucionados.  Esta postura assertiva é vista com reservas por muitos, notadamente na saúde pública, que temem que a preocupação com o curto prazo desvie as atenções das questões mais duradouras. Entretanto, há que se aceitar que o senso de urgência é uma componente inevitável da cultura empresarial, aguçada nos momentos de pandemia.

Transformar ideias em ação é o grande desafio, pois o planejamento só produz resultados quando transformado em algo concreto. O planejamento aplicado a cadeia de valor da saúde é um processo técnico e político, contudo em momentos de pandemia não existem pessoas “encarregadas somente para pensar” e outras “encarregadas para agir”, nestes momentos busca-se profissionais com perfil inovadores e resistentes ás críticas. Profissionais que necessitam estar próximo do quotidiano avaliando, retroalimentando, influenciando e melhorando a qualidade das decisões e alocando recursos escassos e emergenciais, enquanto paralelamente trabalham com os temas de médio e longo prazo.

Algumas ações dos gestores frente a uma realidade pandêmica, são facilitadoras da mudança e do planejamento estratégico, uma vez que em momentos de crise se manifesta o desconforto com práticas superadas e de baixo valor agregado. Esta tensão criativa típica das organizações da saúde, deve encontrar receptividade nos tomadores de decisão, ou ela se dissipará, levando os indivíduos provavelmente à frustração e ao isolamento.  A seguir os elementos a serem considerados numa abordagem de “Fazejamento” para a saúde populacional:

Capital humano – talentos e pessoas são fatores críticos. Formar gestores e profissionais de saúde qualificados e em abundância já é uma mudança de mentalidade significativa. Pandemias provocam profundas transformações econômicas e sociais.

Governança corporativa como parte da estratégia – a arquitetura política, social e econômica do mundo se reconfigura a partir de crises e pandemias. Nota-se que nesta reconfiguração, uma das fragilidades corporativas está na baixa capacidade de criar uma simbiose entre governança e estratégia.

Educação Sanitária – o fator singular do cidadão e seu papel em momentos de pandemia deve ser claramente endereçado com ações de Consciência Sanitária, higiene e assepsia. Em decorrência um novo modelo na infraestrutura sanitária das cidades ocorrerá.

Austeridade – o risco da convivência da abundância para poucos e escassez para muitos é crítico após crises ou pandemias. Em face de uma recessão global é inevitável o empobrecimento e o apelo aos agentes de saúde pelo uso mais eficiente dos recursos disponíveis.

Conectividade e integração – a tecnologia como instrumental de integração e comunicação serão os vetores de viabilização da saúde populacional. Educação, cidadania, consciência sanitária e “ virtual care “ são elementos reais deste novo momento da saúdo e componentes do ensaio e erro do “fazejamento”.

A responsabilidade cidadã e social – o fortalecimento das instituições após a pandemia se fara acompanhar do maior compromisso com a segurança do consumidor e dos colaboradores. Haverá uma demanda junto a liderança comprometida dos acionistas e gestores, todos atuando de forma sinérgica e complementar.

Competência cientifica e tecnológica – a busca da autossuficiência para o correto enfrentamento de crises e pandemia será uma premissa decisória. A dependência de insumos e importados se apresenta como um dos pontos de maior fragilidade no contexto da gestão da crise.

Capacidade de responder aos momentos de crise – não se trata somente do sentido de prontidão dos agentes da saúde populacional, mas também a estrutura de gestão de crise. Órgãos de controle sanitário e instituições independentes são o alicerce confiável de resposta à incerteza. O prévio conhecimento dos órgãos e instituições e dos planos de ação com seus regramentos em momentos de incerteza são essências durante as pandemias ou pós crise.

Momentos de crise não aceitam abordagens estanques e isoladas. Assim, esta abordagem não trata de fases estanques e sequenciais; pelo contrário, o entendimento atual é de que os momentos de planejamento e execução são simultâneos, caracterizando-se com aquilo que se denomina planejamento estratégico situacional.

O conceito de “Fazejamento” aqui defendido possui características circulares, não há precedência lógica entre os elementos contidos no diagnostico, na visão, na implantação ou no controle.  Aculturar os profissionais da saúde a se habituarem a este continuo aperfeiçoamento instrumentalizado no planejar e no executar, amplia consideravelmente a capacidade da equipe de diagnosticar e formular resolução.

Pode ser considerado como uma intervenção proposital e ordenada para aceleradamente modificar realidades. A distância entre planejar e executar em momentos de pandemia devem ser as menores possíveis. Demonstrar ideias é tarefa complexa, e sua concretização é permanentemente ameaçada e estimulada pela evolução do quadro de “guerra” e demais prioridades. A característica da circularidade, presente nesta abordagem, faz com que os atores aprendam com seus equívocos e acertos, tornando-se protagonistas na condução do processo de enfrentamento da crise.

Sobre o autor:
PAULO MARCOS SENRA SOUZA
Médico, Cofundador e Executivo da AMIL, Cofundador e CEO da ASAP – Aliança Saúde Populacional e do INLAGS – Instituto Latino Americano de Gestão em Saúde. Pesquisador do GPDES do IESC UFRJ.

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