Por: EDUARDO PRADO

A pandemia da Covid-19 pegou o mundo de surpresa e “estraçalhou” os sistemas de saúde e as economias ao “pelo mundo afora”. Grandes países – como os EUA – ficaram de joelhos.

A situação do coronavírus é tão estranha – em termos do “vai e volta” com a disseminação da doença – que mesmo para países que atacaram fortemente a doença como a China (com as  ações fundamentais de Testar, Rastrear, Isolar e Tratar) estão sofrendo com os “repiques” da Covid-19 (ver China confina meio milhão de pessoas perto de Pequim por Covid-19, G1 Notícias, 25.jun.2020).

Enfim, o coronavírus está fazendo o mundo de “gato e sapato”!

Hoje em dia ninguém tem uma VISÃO COMPLETA do impacto do coronavírus no corpo humano …. toda hora surge algo novo sobre o tal vírus. Uma coisa é certa: sabemos que ele provoca uma “tempestade inflamatória” no corpo humano (ver A IA no trato da “Tempestade Inflamatória” da Covid-19, Startup Saúde, 21.mai.2020).

A medicina moderna cada vez mais é baseada na ação de “engenheirar” a biologia para evoluir com novas descobertas (ver When Biology Moves to Engineering, Andreessen & Horowitz, 10.jan.2018). A biologia impactará cada vez mais a saúde humana e trará respostas cada vez mais desafiadoras sobre a saúde humana (ver Biology is Eating the World: A Manifesto, Andreessen & Horowitz, 28.oct.2019).

Dentro dessa linha os cientistas estão apostando no uso da genômica humana (decodificação do DNA) para trazer respostas – até agora inexistentes – para um melhor entendimento do impacto do coronavírus no corpo humano!

Os cientistas identificaram um novo conjunto de 68 genes associados a um alto risco de desenvolver uma doença de Covid-19 grave à medida que os geneticistas buscam entender por que as pessoas variam tanto entre elas quanto à suscetibilidade à doença, isto é, por que algumas pessoas são mais suscetíveis que outras em relação ao coronavírus.

No dia 25.jun passado foi divulgado um “pre-print” de uma matéria sobre a análise genômica da empresa PrecisionLife de Oxford no Reino Unido, que utilizou os dados do UK Biobank e tem acrescentado um número crescente de pistas genéticas sobre a vulnerabilidade ao vírus (ver Analysis of Genetic Host Response Risk Factors in Severe COVID-19 Patients, MedRXiv, 20.jun.2020).

O fato de que algumas pessoas sofrem as consequências de uma doença de Covid-19 grave, enquanto outras pessoas são infectadas sem ter sintomas, apesar de estarem em ambientes semelhantes, tem causado uma perplexidade generalizada.

DOZE dos 68 genes identificados pela PrecisionLife, estão envolvidos na circulação cardíaca e sanguínea, incluindo a regulação dos níveis de cálcio. Isso coincide com a observação de que o sistema cardiovascular frequentemente sofre um estresse severo em pacientes hospitalizados com Covid-19.

Na semana retrasada, uma equipe acadêmica internacional (ver Genomewide Association Study of Severe Covid-19 with Respiratory Failure, The New England Journal of Medicine, 17.jun.2020) encontrou duas áreas do DNA humano que diferiam significativamente entre 1.600 pacientes na Espanha e na Itália que sofreram insuficiência respiratória Covid-19 e pessoas que não apresentavam sinais de doença.

Uma 1ª área representa um conjunto de genes determina o grupo sanguíneo: as pessoas com sangue do tipo “A” (aproximadamente 30% da população global) têm maior risco de doença Covid-19 grave do que aquelas do tipo “O”, descobriram os pesquisadores.

A 2ª área abrange os genes envolvidos no receptor ACE2, uma proteína na superfície das células humanas que o coronavírus usa como ponto de entrada, embora sua conexão precisa com a Covid-19 permaneça incerta (ver What is the ACE2 receptor, how is it connected to coronavirus and why might it be key to treating COVID-19? The experts explain, The Conversation, 14.may.2020).

As descobertas são “apenas um começo”, disse Daniel Wilson, especialista em genômica de doenças infecciosas da Universidade de Oxford. “Mas elas são um indicador da maneira pela qual a análise da genética humana poderá ajudar a explicar por que algumas pessoas ficam com Covid mais severa e outras escapam”.

A influência potencial das descobertas genéticas é enorme. Elas podem levar a descoberta de melhores medicamentos para tratar o Covid-19 porque melhoram a compreensão dos cientistas sobre a biologia da doença.

A longo prazo, decodificar o DNA de um paciente após a confirmação da infecção da Covid-19 pode permitir que um plano de tratamento pessoal seja adaptado à sua provável resposta genética ao vírus.

“Em algum momento, poderá ser possível medir a pontuação de risco genético das pessoas quanto à suscetibilidade ao Covid“, disse o professor Rory Collins, executivo-chefe do UK Biobank, que tem vários projetos para comparar dados genéticos de seus 500.000 participantes com suas experiências no Covid-19.

Dois consórcios internacionais foram formados para coordenar a pesquisa. Ambos visam compartilhar todos os dados e análises abertamente e liberar resultados o mais rápido possível.

A Iniciativa de Genética Covid-19 Host (ou Covid-19 Host Genetics Initiative) é liderada por Mark Daly e colegas do Institute for Molecular Medicine Finland. O outro projeto, o Covid Human Genetic Effort, é liderado pelos EUA por Helen Su, do National Institutes of Health (NIH), e Jean-Laurent Casanova, da Rockefeller University.

O projeto dos EUA está buscando variações em genes únicos que explicariam os casos incomuns de indivíduos jovens e saudáveis ​​que têm uma resposta potencialmente fatal à infecção por Sars-Cov-2 – e por pessoas que parecem resistir à infecção mesmo quando expostas várias vezes ao vírus.

Existem também diferentes níveis de análise do DNA humano. O topo da gama é o “sequenciamento genômico completo” (ou WGS = Whole Genome Sequencing), que lê todas as 3 bilhões de letras químicas do DNA humano que armazenam a herança genética de todo ser humano. Em seguida, vem o “sequenciamento de exoma”, que apenas lê os genes que produzem proteínas diretamente, as moléculas biológicas mais ativas.

O terceiro nível – mais rápido e mais barato que os outros dois – é a “genotipagem”. Ele se concentra em uma matriz de 500.000 a 1 milhão de letras de DNA no genoma escolhido porque elas representam pontos críticos de variação individual.

O maior banco de dados de dados de “genotipagem” do mundo é mantido pela famosa empresa 23andMe, empresa de genética para consumidores (“Direct to Consumer”) da Califórnia, que deseja vê-lo sendo usado na pesquisa Covid-19. Seu primeiro estudo obteve respostas de 750.000 pessoas e forneceu evidências precoces de que aqueles com sangue do tipo “O” eram menos propensos a dar positivo para infecção – uma descoberta confirmada na semana passada pelo estudo acadêmico na Espanha e na Itália.

“A velocidade com a qual podemos realizar esses estudos aumentou enormemente”, disse Joyce Tung, vice-presidente de pesquisa da 23andMe. Uma vez que pode levar uma década para entender como um gene influenciou uma doença, ela acrescentou. Agora isso pode ser feito em questão de meses.

Vimos aqui apenas uma pequena “pitada” do que a genética humana pode fazer para “explicar” o coronavírus e, no futuro, como ela poderá nos ajudar nos diagnósticos das doenças que não entendemos seus efeitos no corpo humano … é hora de apostar em BIOTECH e na BIOLOGIA SINTÉTICA!

Essa matéria se baseou neste artigo original do Financial Times: Human genetics provides clues about mysteries of coronavirus, 25.jun.2020.

Fonte: https://startupsaude.com/pela-primeira-vez-o-dna-humano-fornece-pistas-sobre-os-misterios-do-coronavirus/

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