Nos tempos da Cloroquina: das Grandes Navegações ao Twitter de Jair Bolsonaro

Rômulo de Paula Andrade.

Em meio a uma pandemia de dimensões nunca antes presenciadas pela humanidade neste século, um medicamento historicamente utilizado para controle da malária, uma típica doença negligenciada, ganha status de panaceia. Quais caminhos e descaminhos levaram a isso? O que o recente hype dessa inusitada protagonista nos diz sobre a produção e consumo de ciência nos tempos das redes sociais?

Da Quinina à Cloroquina: uma história global do combate à malária

A cloroquina é uma droga análoga sintética do quinino, o medicamento mais utilizado contra a malária durante o período da construção dos grandes impérios europeus. Esta é uma história muito ligada aos conflitos e intercâmbios ocorridos no mundo desde o século XVI, em especial nos desafios que a malária trouxe às invasões europeias nos continentes americano e africano. O medicamento era extraído das raízes das árvores Cinchona, abundantes na região dos Andes. Utilizada pelos povos originários para febres e outras doenças, a quinina foi rapidamente apropriada pelos europeus por conta da incontrolável subida no número de doentes pela malária, doença chamada assim pois acreditava-se que era transmitida pelo ar (mal + ar = malaria). Essa ideia era fruto das concepções médicas do período, que davam conta que as doenças eram transmitidas por miasmas, emanações e exalações provenientes de matéria orgânica em putrefação, detectáveis principalmente através do cheiro. No fim do século XIX, um mosquito do gênero Anopheles foi identificado pela ciência médica como o transmissor da doença. Independente das diferentes ideias que circulavam sobre a origem da enfermidade, a quinina tinha se tornado o seu principal remédio, pois ela agia direto contra o parasita causador da doença, o Plasmodium.

Provavelmente levada para a Europa por missionários jesuítas, a quinina foi utilizada em grandes surtos de malária no velho continente, bem como para outras febres. Para além disso, historiadores concordam que, mais que um remédio, a quinina também foi um instrumento de guerra, ao poupar vida dos invasores durante os diferentes processos de colonização, colaborando na manutenção e expansão dos impérios coloniais. Até o século XVIII, o tratamento para a malária consistia no uso das raízes e do galho da árvore e, em alguns casos, devido ao gosto forte, o pó resultante dessa extração era misturado a vinhos e farinhas para ficar mais palatável (ou menos amargoso). No século XIX, durante a fase mais aguda do neocolonialismo, os franceses Pierre Pelletier e Joseph Caventou descobriram o processo de extração de quinina, iniciando uma grande busca pela matéria prima pelos países americanos, muitos em processo de independência. Assim, o cultivo da Cinchona se espalhava: das Américas para a Índia, chegando à Indonésia. Até meados do século XX, a quinina ainda era o principal medicamento contra a malária, mas a ocupação do sudeste asiático fez com que os países ocidentais não mais tivessem acesso à matéria prima do remédio. A produção mundial de quinina dependia das plantações em Java. Assim, o governo holandês, colonizador daquela região criou, em 1913, a Kina Bureau, para administrar o comércio da substância com outras empresas europeias. Como era um monopólio, a flutuação de preço do produto em tempos de guerra preocupava as potências ocidentais. Na Primeira Guerra Mundial, houve sérios problemas de abastecimento para os soldados e para a população atingida pelo conflito.[1] Além disso, existiam pesquisas, como a de Arthur Neiva, do Instituto Oswaldo Cruz, que identificavam resistências do plasmódio ao quinino, verificada durante a campanha contra a malária na Baixada Fluminense, em 1907.[2]

Quinina. Ilustração do século XIX.

Assim, começou a busca por alternativas à quinina. As potências antagônicas do conflito (EUA e Alemanha) investiram em um amplo programa de busca de novos medicamentos, devido aos conflitos e operações em zonas endêmicas de malária que ocorriam naquele período. Este processo veio ao encontro de pesquisas que, desde o século XIX, tentavam desenvolver moléculas sintéticas baseadas na estrutura da quinina. Na Alemanha, a Bayer tornou-se uma das líderes na fabricação de medicamentos, com muitos projetos de pesquisa e desenvolvimento de novas drogas sintéticas, desenvolvendo assim o antimalárico plasmoquina, em 1925. No início da década de 1930 foi desenvolvida a atebrina, amplamente utilizada pelos norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial, mas com fortes efeitos colaterais: aparência amarelada, psicose, depressão, zunidos e desequilíbrio. Não foi fácil para os soldados se curarem da malária.[3] Mas, desde o período entreguerras (1918–1939), outro medicamento estava sendo produzido e testado. Hans Andersag, químico alemão ligado à Bayer, desenvolveu e patenteou em 1934 a molécula Resochin. Inicialmente, foi considerada muito tóxica para humanos, fazendo com que a companhia não comercializasse o medicamento. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Resochin ganhou outro nome, cloroquina, e foi testada clinicamente pelos americanos em 1946, com menos efeitos colaterais, sendo considerada mais segura que a atebrina. A Hidroxicloroquina foi desenvolvida nos anos 1950, sendo bastante similar à cloroquina, mas com menos efeitos colaterais. No uso clínico da cloroquina e similares nos soldados, observou-se que o uso profilático dos antimaláricos melhorou as feridas que eles possuíam na pele, assim como foi observada a melhora em portadores de artitrite reumatoide. Isso levou a testes que abriram a porta para o uso da cloroquina em outras doenças, como a lúpus.

Uma contribuição brasileira para os estudos e consequente aplicação do medicamento foi o “sal Pinotti”, uma mistura de sal de cozinha e cloroquina, criado pela equipe do médico Mario Pinotti, que, posteriormente, seria o ministro da saúde do governo Juscelino Kubitschek. A ideia do medicamento era justamente prevenir a malária através da ingestão da cloroquinina através do alimento. Além disso, era considerada uma alternativa mais barata ao uso extensivo do Dicloro-Difenil-Tricloroetano (DDT), então o principal método de eliminação do mosquito vetor da malária.[4] Ocorreram, no entanto, casos de resistência cultural da população ao produto, que, por conta de boatos que circulavam no interior do país, não aceitavam ingerir o sal.[5] Houve casos de tráfico de sal de cozinha não-cloroquinado por parte dos habitantes, já que existiam, na ocasião, tentativas de controle da entrada de sal nas regiões do interior do Brasil. Além disso, quando misturada à água, a cloroquina do sal se precipitava, dando um gosto amargo ao alimento. Nas décadas seguintes, nós anos 1960, pesquisas demonstraram o aparecimento de cepas cloroquino-resistentes, em especial no plasmódio mais forte da malária, o Falciparum. Mesmo assim, o sal foi utilizado ainda em outras regiões do mundo durante a Campanha de Erradicação da Malária (1958–1970), bem como em projetos de desenvolvimento regional no Brasil.

Distribuição de sal cloroquinado no interior do Amazonas. 1953. DAD/Fiocruz

Cloroquina nesses dias loucos

É possível estabelecer uma linha do tempo sobre os debates recentes envolvendo a cloroquina e a hidroxicloroquina. Em 17 de fevereiro de 2020, a revista China Science publicou no Twitter uma notícia sobre testes clínicos que estavam sendo feitos desde o dia 4 do mesmo mês, dando conta de possíveis efeitos curativos do medicamento sobre a COVID-19 nestes pacientes.[6] Logo depois, começaram a surgir depoimentos em redes sociais de pessoas curadas graças ao medicamento, vindo de diferentes países. Assim se iniciou nova corrida pela cloroquina, que teve como consequência o sumiço do medicamento das prateleiras, ocasionando sérios problemas para as pessoas que a utilizam para além da malária, como os portadores de artrite reumatoide e Lúpus. O que chama atenção, em especial ao observar o gráfico abaixo feito pelo Washington Post, é a velocidade de disseminação dessa notícia nas diversas redes sociais. Draft papers (rascunhos de propostas) com falhas metodológicas e pesquisas realizadas com amostragens poucos confiáveis foram divulgados e reverberados como se fossem resultados definitivos sobre a eficácia do medicamento.[7] Essa informação foi reforçada por conhecidos blogs e tvs da direita norte-americana, como o Breitbart NewsGateway Pundit, assim como a tv Fox News.[8] Além disso, conhecidas personalidades, como o bilionário Elon Musk, também tuitaram de forma positiva sobre o medicamento. Em 4 de abril, Donald Trump mencionou a hidroxicloroquina em discurso. De acordo com o mandatário, era “um medicamento que dava esperanças e estava trazendo muitas coisas positivas”, pois trazia “forte sinais” de sua efetividade. Foi o ápice das menções ao medicamento nas redes sociais, se espalhando assim pelo mundo.

O Brasil também acompanhou este processo. Apenas 4 dias depois do discurso de Trump, o presidente Jair Bolsonaro também defendeu o uso da cloroquina em pronunciamento ao país, citando possíveis colaborações e intercâmbios de matéria-prima com Nareenda Modi, premier da Índia. O então ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, nos informes diários sobre os casos de COVID-19, mostrou-se preocupado com os efeitos colaterais da cloroquina.[9] Foi o início das tensões entre o presidente e o ministro, que ocasionariam na demissão de Mandetta em 16 de abril de 2020. Em tempos de informação acelerada e de formação de sólidas redes entre membros de partidos de direita e extrema-direita no mundo, a cloroquina tornou-se uma inusitada protagonista, em especial pela associação histórica do medicamento à malária; doença que não integra as prioridades sanitárias dos países mais ricos há tempos.[10] Não à toa, é qualificada como uma doença negligenciada, ou seja, faz parte do rol de enfermidades causadas por agentes infecciosos ou parasitas, e são consideradas endêmicas em populações de baixa renda. Doenças negligenciadas em geral apresentam investimentos reduzidos em pesquisas, produção de medicamentos e estratégias de controle.

Gráfico 1

Infográfico sobre menções nas redes sociais da hidroxicloroquina.

No Brasil, a expectativa de cura e a pressão para a reabertura do comércio, em cidades que tiveram decretadas políticas de distanciamento social, levaram médicos a receitarem a hidroxicloroquina para casos de COVID-19, gerando uma corrida ao remédio, esgotando os estoques e subindo as ações das empresas responsáveis pela produção. Como já mencionei, pessoas, com as outras doenças tratadas pelo medicamento, passaram a ter dificuldades em encontrar o remédio. E, quando o encontravam, o preço estava nas alturas. Efeitos colaterais, como arritmia cardíaca, foram ignorados, e, em alguns casos, a hidroxcloroquina foi utilizada de forma profilática (ou seja, em pacientes sem sintomas da COVID-19), gerando sérios debates sobre o uso indiscriminado de uma droga que não tem (até o momento) estudos categóricos que comprovem a sua eficácia no tratamento da doença que virou pandemia.

Gráfico 2: Menções de Donald Trump à hidroxicloroquina em discursos

https://www.washingtonpost.com/politics/2020/04/22/trump-fox-news-suggest-caution-hydroxychloroquine-studies-after-one-undercuts-their-case/

À medida que os dias passaram, pesquisas realizadas na China, EUA e Brasil, com amostragens mais robustas, começaram a concluir em sentido oposto ao discurso do presidente norte-americano: a cloroquina não tinha efeitos satisfatórios contra a COVID-19, e, em grande parte dos casos, os efeitos colaterais não compensavam seu uso. O impacto dessas pesquisas foi significativo na reversão das falas de Trump. Em outro gráfico, feito pelo Washington Post, ficou evidenciado que a “febre da cloroquina” arrefeceu; fato visível na diminuição das menções ao medicamento feitas pelo presidente norte-americano. Logo depois, ocorreu a exclusão, por parte do Center for Disease Control and Prevention (um dos principais órgãos reguladores de saúde dos EUA), da hidroxicloroquina como tratamento recomendado para a COVID-19. Inicialmente, a página do CDC intitulada “Informações para Clínicos sobre Opções Terapêuticas para Pacientes com a Covid-19” dizia: “Embora a dosagem e duração ótimas da hidroxicloroquina no tratamento para a Covid-19 sejam desconhecidas, alguns clínicos dos EUA têm reportado” sobre as maneiras de prescrever o medicamento. Agora o website do CDC não possui mais as informações. Em vez disso, afirma que: “Não há medicamentos ou outras terapêuticas aprovados pela Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) para prevenir ou tratar a covid-19”. Nos últimos dias, outro medicamento tem sido citado constantemente nos discursos de Donald Trump: o Remdesivir, que tem obtido sucesso em testes clínicos com pacientes em estado avançado da doença, diminuindo o tempo de ocupação nas UTIs. Mesmo assim, o COVID-19 Treatment Guides, principal painel de recomendações governamentais para o tratamento da doença, afirma que, assim como a cloroquina, o Remdesivir não possui comprovações suficientes para ser adotado como um medicamento recomendado pelos órgãos oficiais. Em escala maior ou menor, os estados norte-americanos, em seu intrincado federalismo, têm seguido o distanciamento social, mesmo demonstrando alguns sinais de abertura.

Na mesma época, no Brasil também houve diminuição considerável das menções à cloroquina e à hidroxicloroquina. Em levantamento realizado pela empresa Interplayers, foi possível perceber uma forte queda pela busca do medicamento, em torno de 60%, dando conta que os resultados não justificaram a corrida nas farmácias. Nos últimos dias, ocorreu um “reaquecimento” sobre o assunto, onde as discordâncias envolvendo a cloroquina foram as responsáveis pela saída de mais um ministro da saúde no espaço de um mês. Em uma análise prévia ao Twitter do presidente, é possível perceber que nos últimos meses o assunto tem oscilado nas menções (ver gráfico 3). No dia 20 de maio, o ministério da saúde divulgou orientações do Ministério da Saúde para o Manuseio Medicamentoso Precoce de Pacientes com Diagnóstico da COVID-19, onde é recomendado o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para os momentos iniciais da doença. Mas no mesmo documento existe uma observação:

Apesar de serem medicações utilizadas em diversos protocolos e de possuírem atividade in vitro demonstrada contra o coronavírus, ainda não há meta-análises de ensaios clinicos multicêntricos, controlados, cegos e randomizados que comprovem o beneficio inequívoco dessas medicações para o tratamento da COVID-19. Assim, fica a critério do médico a prescrição, sendo necessária também a vontade declarada do paciente, conforme modelo anexo (Grifos Meus).[11]

O protocolo recebeu crítica de diversos cientistas e entidades de classe, como o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) e a Sociedade Brasileira de Infectologia , dentre outras.[12] Um forte resposta foi dada por representantes de diversas entidades médicas e científicas, rechaçando de forma veemente o uso da cloroquina:

Não se deve opor, em meio ao desespero da população, à prescrição de substâncias com efeito placebo, ou seja, que fazem um paciente se sentir bem, mesmo sem qualquer ação farmacêutica comprovada (…) O vírus está autorizado a matar, por sua natureza não regida pela justiça dos homens, mas não o médico, ainda que pretensamente agindo em boa fé.[13] (Grifo meu)

Seguindo essa tendência, países como a Suécia não o utilizam mais para o combate à COVID-19 e, além disso, o próprio Conselho Federal de Medicina não recomenda o uso do medicamento. Por fim, uma publicação no site do Ministério da Saúde trata uma notícia sobre o uso da cloroquina como Fake News[14]:

O texto que acompanha a imagem afirma o seguinte:

“A cloroquina e hidroxicloroquina são medicamentos autorizados, a critério médico, para uso de curto prazo, apenas em pacientes graves hospitalizados devido ao coronavírus. Elas irão complementar todos os outros suportes utilizados no tratamento do paciente no Brasil, como assistência ventilatória e medicações para os sintomas, como febre e mal-estar. Tanto a cloroquina quanto a hidroxicloroquina não são indicadas para prevenir a doença e nem tratar casos leves.”

Ainda assim, a cloroquina segue como objeto de muitas pesquisas clínicas, sendo o medicamento mais testado em humanos no mundo. No Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz ficou à frente do ensaio clínico Solidarity (Solidariedade), que tem como objetivo investigar a eficácia de quatro tratamentos (a cloroquina entre eles) para a Covid-19.[15]Apenas no mês de maio, mais três estudos (de origens distintas: China, França e EUA) sobre a eficácia do medicamento foram publicados em periódicos com alto grau de impacto. Esses estudos, de forma geral, reafirmam que as evidências não sustentam o uso da cloroquina nem como tratamento profilático, nem emergencial para todas as pessoas, em especial devido aos efeitos colaterais.[16]

GRÁFICO 3

Fonte: https://twitter.com/search?f=live&q=(cloroquina%3B%20OR%20hidroxicloroquina)%20(from%3Ajairbolsonaro)&src=typed_query

No Brasil, o uso ou não da cloroquina tomou do debate público nas redes sociais. Pesquisadores estão sendo perseguidos pelo simples fato de o resultado de suas pesquisas contrariarem as expectativas de turbas virtuais. Recentemente, equipes que coletavam testes para a elaboração de uma pesquisa nacional (EPICOVID-19) foram detidas e agredidas em cidades do norte e do sul do país. Em meio a um instável contexto político e social, um turbilhão de notícias falsas é lançado com o objetivo de desacreditar o distanciamento social. A agência de checagem Aos Fatos mostrou que, nos últimos três meses, as desinformações passaram por três etapas. Inicialmente, versavam sobre teorias conspiratórias que relacionavam a “criação” do vírus a objetivos geopolíticos “ocultos” de agências de financiamento internacional, como a Bill and Melinda Gates Foundation. À medida que o país começava a ter os primeiros casos da doença, em março, explodiram no Whatsapp receitas milagrosas para a cura do coronavírus. Nas últimas semanas, com a escalada dos casos, a maior parte das mentiras foram divulgadas no Facebook, com longos textos sobre supostas supernotificações, além de conspirações sobre os “reais motivos” do distanciamento social. Uma das ferramentas criadas para a fiscalização dessas notícias foi o aplicativo Eu Fiscalizo, que possibilita que usuários notifiquem conteúdos impróprios em veículos de comunicação e mídias sociais.[17] A partir dos dados recolhidos pelo aplicativo, foi observado que as notícias falsas buscam se legitimar em instituições reconhecidas. Dessa forma, a Fiocruz apareceu como fonte de informações em 75% das notícias falsas coletadas pelo aplicativo. Qual é a consequência disso? No artigo Misinformation During an Epidemic, Leonardo Bursztyn e outros analisam o comportamento de espectadores de dois programas da rede Fox News. Observaram que a maior ou menor adesão ao isolamento social dependeu da editoria destes programas sobre as medidas restritivas. A desinformação, assim, tem relação direta com baixos índices de distanciamento social.[18]

Em ensaio ao Clarín, o historiador Diego Armus afirma que as narrativas criadas neste contexto (tanto as falsas quanto as verdadeiras) têm algo em comum: a incapacidade e o incômodo em lidar com as incertezas desta conjuntura epidêmica. Neste ponto, a pandemia em tempos de redes sociais tem proporcionado uma autêntica profusão de memes produzidos para responder às informações erradas ou mesmo para a conscientização sobre os riscos trazidos pelo Coronavírus. Abaixo temos dois exemplos: o primeiro, feito em resposta ao vídeo amplamente compartilhado no Twitter e no Whatsapp que recomendava o uso de água tônica para “prevenir” a COVID-19.[19]

Mesmo o clássico quadrinho em que Batman dá um tapa em Robin, extraído de uma HQ do Batman de 1965 (e um dos mais utilizados para a elaboração de memes), foi refeito para a conscientização sobre a doença:

As reações às epidemias na história não são novidade. A gripe espanhola em 1918 tem sido constantemente revisitada em diversas reportagens, que demonstram que a disseminação de notícias falsas e soluções mágicas não são exclusividades do século XXI. Neste momento, historiadores da saúde e das doenças têm se colocado à disposição (e felizmente têm sido procurados pela imprensa) para participar de podcasts, colaborar na elaboração de reportagens, e também de lives que possam estabelecer comparativos entre estas e outras epidemias.[20] Em tempos em que o presente traz inseguranças e incertezas, o passado pode, quem sabe, trazer alento sobre a capacidade humana de superar estes momentos. Além disso, iniciativas de divulgação científica têm feito o papel fundamental de informar sobre os processos e métodos das “ciências duras”, demonstrando também que, independente do árduo trabalho que amplas redes de pesquisadores têm feito, a cura não depende exclusivamente de nosso desejo ou pressa.[21] Ou então, de forma mais simples, a cura não virá nas duas horas de Epidemia, filme de 1995 estrelado por Dustin Hoffman, ou na uma hora e quarenta e seis minutos de Contágio, de 2011. Como a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, afirmou em entrevista ao Deutsche Welle“Queremos respostas logo, mas a ciência não trabalha assim”. Além disso, várias equipes estão em intenso trabalho no desenvolvimento de uma vacina para a COVID-19, umas com resultados promissores, outras nem tanto. Entre quarenteners e chloroquiners não há mera “diferença de opiniões”; a diferença existente é aquela que separa a ciência da desinformação. Ou pior, a vida da morte. No momento dessa escrita, o Brasil ultrapassa os trinta mil mortos, com sistemas de saúde locais entrando em colapso. Dias mais duros ainda nos aguardam. Boa sorte a todos nós. Confiemos na(s) ciência(s).

André Dahmer

PS 1: no dia 18/05, Donald Trump afirmou que estava tomando Cloroquina de forma profilática, reacendendo o debate nos EUA, mostrando que essa história ainda está longe de ter um fim.

PS2: Um amplo estudo multinacional feito pela revista Lancet afirmou que, após o teste em 96 mil pacientes, o uso da cloroquina, na prática, aumentou o número de mortos e possibilidade de arritmia. Na mesma mão, mais de cem pesquisadores questionaram a metodologia e os dados desse estudo. De novo, não parece uma história com fim próximo.

Referências:

1) Sobre o conceito de doenças negligenciadas:

VALVERDE, Ricardo. “Doenças Negligenciadas”. Agência Fiocruz de Notícias. https://agencia.fiocruz.br/doen%C3%A7as-negligenciadas, último acesso: 29/04/2020.

2) Sobre a Quinina e sua história:

CASSAWERS, TOM. The global history of quinine, the world’s first anti-malaria drug. https://medium.com/@tcassauwers/the-global-history-of-the-world-s-first-anti-malaria-drug-d1e11f0ba729

Chloroquine Chronicles: A History of the drug who conquered the world. https://www.pri.org/stories/2020-04-15/chloroquine-chronicles-history-drug-conquered-world

NUNN, Nathan; QIAN, Nancy. The Columbian Exchange: A History of Disease, Food, and IdeasJournal of Economic Perspectives — Volume 24, Number 2 — Spring 2010 — Pages 163–188. Disponível em: https://scholar.harvard.edu/files/nunn/files/nunn_qian_jep_2010.pdf

https://jornalggn.com.br/a-grande-crise/as-raizes-do-hype-da-cloroquina-por-paulo-almeida/

2) Sobre a história da cloroquina e de outros sintéticos antimaláricos:

BENCHIMOL, Jaime Larry. SILVA, André Felipe Cândido. MALÁRIA E RESISTÊNCIA AO QUININO: HISTÓRIA E CIRCULAÇÃO DE UMA PROBLEMÁTICA MÉDICA E CIENTÍFICA. Anais, 13º SNHCT, 2012.

MANZALI DE SÁ, Ivone. A resistência à cloroquina e a busca de antimalariais entre as décadas de 1960 e 1980. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, Rio de Janeiro, v.18, n.2, abr.-jun. 2011, p.407–430

3) Sobre o uso do sal cloroquinado:

Andrade, R. D. P. (2016). A saúde em tempos de desenvolvimento: a campanha de erradicação da malária na Amazônia. História Revista20(3), 58–79. https://doi.org/10.5216/hr.v20i3.36950

SILVA, Renato da and HOCHMAN, Gilberto. Um método chamado Pinotti: sal medicamentoso, malária e saúde internacional (1952–1960). Hist. cienc. saude-Manguinhos [online]. 2011, vol.18, n.2, pp.519–544. ISSN 0104–5970. https://doi.org/10.1590/S0104-59702011000200012.

Sites visitados:

https://www.lupus.org/resources/why-are-treatments-that-were-developed-for-malaria-now-used-for-lupus

https://blogs.sciencemag.org/pipeline/archives/2020/03/20/chloroquine-past-and-present

https://www.nytimes.com/2020/04/05/us/politics/trump-hydroxychloroquine-coronavirus.html

https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2020/04/07/interna_nacional,1136634/mandetta-libera-medicos-a-prescrever-cloroquina-contra-coronavirus.shtml

https://www.washingtonpost.com/video/politics/fact-checker/hydroxychloroquines-false-hope-how-an-obscure-drug-became-a-coronavirus-cure–the-fact-checker/2020/04/13/f3fd3bea-62f5-4b75-add0-689113ff305c_video.html

https://www.washingtonpost.com/politics/2020/04/22/trump-fox-news-suggest-caution-hydroxychloroquine-studies-after-one-undercuts-their-case/

https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/hcp/therapeutic-options.html

https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/05/01/trump-diz-que-agencia-autorizou-emergencialmente-uso-de-medicamento-para-combater-covid-19.ghtml

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/autores-de-pesquisa-sobre-cloroquina-no-amazonas-recebem-ameacas.shtml

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52304259

http://aosfatos.org/noticias/em-tres-meses-desinformacao-sobre-covid-19-foi-de-cura-milagrosa-a-politizacao-do-isolamento/

https://www.clarin.com/revista-enie/ideas/-narra-coronavirus-incertidumbres-historias-globales_0_ot977nECw.html

https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisa-revela-dados-sobre-fake-news-relacionadas-covid-19

https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/05/01/medo-reacoes-escapistas-e-busca-por-culpados-durante-epidemias-ja-ocorreram-em-outros-momentos-da-historia-explicam-historiadores.ghtml

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2020/04/30/queremos-respostas-logo-mas-a-ciencia-nao-trabalha-assim.htm

https://www.nature.com/articles/d41586-020-01221-y

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/guerra-entre-cloroquiners-e-quarenteners-reinventa-polarizacao-na-pandemia.shtml

[1] Toda a parte histórica sobre as pesquisas e desenvolvimento de antimaláricos foi retirada do belíssimo artigo de Ivone Manzali de Sá: A resistência à cloroquina e a busca de antimalariais entre as décadas de 1960 e 1980. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, Rio de Janeiro, v.18, n.2, abr.-jun. 2011, p.407–430

[2] Sobre as pesquisas envolvendo a resistência ao quinino, recomendo a leitura do artigo dos pesquisadores da COC Jaime Benchimol e André Felipe Candido da Silva, “Malária e Resistência ao Quinino: História e Circulação de Uma problemática Médica e Científica.”

[3] https://blogs.sciencemag.org/pipeline/archives/2020/03/20/chloroquine-past-and-present, último acesso: 1/05/2020.

[4] Nos anos 1960, começaram a surgir muitas críticas às consequências ambientais do uso do DDT. Um exemplo foi o livro de Rachel Carson, Primavera Silenciosa, em 1962.

[5] Um dos boatos que mais corria entre os populares é que o sal cloroquinado causava impotência sexual.

[6]

O estudo seria publicado posteriormente e com resultados inconclusivos e o efeito da hidroxicloroquina foi parcialmente confirmado. Ver: Zhaowei Chen et al. Efficacy of hydroxychloroquine in patients with COVID-19: results of a randomized clinical trial. doi: https://doi.org/10.1101/2020.03.22.20040758

[7] Diante da urgência em compartilhar resultados sobre a pandemia, grande parte das publicações internacionais adotaram o sistema fast-track, já adotado em outras emergências sanitárias, como na epidemia de Zika, por exemplo, e que tem como objetivo reduzir o tempo entre a submissão e divulgação de um artigo científico, de forma a acelerar o compartilhamento transnacional de conhecimento sobre o tema. Por isso, exatamente, as publicações mais recentes sobre a COVID-19 estão em pre-print, ou seja, ainda não passaram pela revisão pelos pares (outros especialistas). A Revista FAPESP publicou uma ótima reportagem sobre este assunto: https://revistapesquisa.fapesp.br/2020/04/28/rapidez-para-apresentar-resultados/

[8] A referência aqui é em relação ao draft paper de James Todaro e Gregory RIdano :https://github.com/covidtrial/info/raw/master/An%20Effective%20Treatment%20for%20Coronavirus%20(COVID-19).pdf e à pesquisa liderada pelo médico francês Didier Raoult: https://www.mediterranee-infection.com/wp-content/uploads/2020/03/Hydroxychloroquine_final_DOI_IJAA.pdf

Essa história é muito bem contada nessa postagem de Paulo Almeida para o Jornal GGN: https://jornalggn.com.br/a-grande-crise/as-raizes-do-hype-da-cloroquina-por-paulo-almeida/

O artigo acima utiliza como fonte uma publicação da revista Wired, que conta essa história em detalhes. Desde janeiro de 2020 circulavam relatos de cura, com informações sobre testes clínicos utilizando a droga na China, que culminaram com o conhecido texto do pesquisador francês Didier Raoult. Há um consenso entre os especialistas que esses estudos não utilizaram amostragens o suficiente para se sustentarem enquanto indicador de políticas públicas.

[9] Na maior parte das entrevistas, o ministro da saúde mostrou-se reticente em relação ao uso do medicamento, mesmo que, em alguns momentos tenha cedido às pressões para a prescrição do medicamento

[10] O presidente francês Emmanuel Macrou encontrou-se com Didier Raoult, médico que levou adiante o primeiro estudo sobre o uso da cloroquina para pacientes com o novo coronavirus. https://www.politico.eu/article/macron-meets-with-controversial-chloroquine-doctor-in-marseille/

[11] https://saude.gov.br/images/pdf/2020/May/20/ORIENTA—-ES-D-PARA-MANUSEIO-MEDICAMENTOSO-PRECOCE-DE-PACIENTES-COM-DIAGN–STICO-DA-COVID-19.pdf

[12] https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/05/19/associacoes-medicas-publicam-documento-contra-o-uso-de-remedio-para-malaria-no-tratamento-de-covid-19.ghtml

[13] Nota sobre o uso da cloroquina / hidroxicloroquina para o tratamento da COVID-19, assinada por representantes dos seguintes departamentos e das seguintes instituições: Academia Nacional de Medicina, Faculdade de Medicina da UFRJ, Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz, Fundação de Medicina Tropical do Amazonas Doutor Heitor Vieira Dourado e Universidade do Estado do Amazonas, Centro de Estudos Estratégicos, Fiocruz, Centro de Referência Hélio Fraga, ENSP, Fiocruz, Instituto Questão de Ciência e Instituto de Ciências Biomédicas, USP, Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Fiocruz

[14] Última consulta ao site foi em 18/05/2020, às 12:27 e a notícia ainda estava lá: https://www.saude.gov.br/fakenews/46706-cloroquina-e-hidroxicloroquina-passam-a-ser-usadas-no-brasil-para-combater-coronavirus-e-fake-news

[15] Além disso, O Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) foi nomeado Laboratório de Referência da Organização Mundial da Saúde (OMS) para Covid-19 nas Américas. A partir da formalização do acordo entre a OMS e a Fiocruz, a unidade passa a realizar testes confirmatórios da doença na região, além de integrar a rede de especialistas em laboratório da entidade para a Covid-19.

[16] São eles:

1)Tang Wei, Cao Zhujun, Han Mingfeng, Wang Zhengyan, Chen Junwen, Sun Wenjin et al. Hydroxychloroquine in patients with mainly mild to moderate coronavirus disease 2019: open label, randomised controlled trial BMJ 2020; 369 :m184

2) Mahévas et al. Clinical efficacy of hydroxychloroquine in patients with covid-19 pneumonia who require oxygen: observational comparative study using routine care data BMJ 2020; 369 :m1844

3) Should Clinicians Use Chloroquine or Hydroxychloroquine Alone or in Combination With Azithromycin for the Prophylaxis or Treatment of COVID-19?

Amir Qaseem, Jennifer Yost, Itziar Etxeandia-Ikobaltzeta, Matthew C. Miller, George M. Abraham, Adam Jacob Obley, Mary Ann Forciea, Janet A. Jokela, and Linda L. Humphrey. Annals of Internal Medicine 0 0:0

[17] O aplicativo foi criado a partir da pesquisa do pós-doutoramento de Cecília Galhardi, na ENSP/Fiocruz. Mais informações em: https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisa-revela-dados-sobre-fake-news-relacionadas-covid-19

[18] https://www.dropbox.com/s/7nl9998zuwdk81i/Misinformation_During_a_Pandemic.pdf?dl=1

[19] Por um compromisso com o alarmante contexto atual, a escolha metodológica deste texto consistiu em ignorar os memes, vídeos e textos que compartilhassem informações falsas.

[20] Elencamos aqui podcasts e iniciativas de divulgação científica que contaram com participação de pesquisadores e egressos da Casa de Oswaldo Cruz:

https://oglobo.globo.com/podcast/o-que-aprendemos-com-pandemia-de-gripe-espanhola-24339653

https://piaui.folha.uol.com.br/terra-e-redonda-coroa-de-espinhos/

Além disso, o site “Pandemia de História” oferece textos de divulgação científica sobre reflexões acerca do COVID-19: https://pandemiadehistoria.wordpress.com/

Por fim, a iniciativa da qual esse texto faz parte, a série Especial Covid-19: o olhar dos historiadores da Fiocruz

http://coc.fiocruz.br/index.php/pt/todas-as-noticias/1768#.Xq6qNahKg2w

[21] Importante iniciativa foi a criação do COVID19 — Divulgação Científica, iniciativa do Instituto Nacional de Comunicação da Ciência e Tecnologia, da Casa de Oswaldo Cruz e do CNPq. O objetivo é mostrar, para toda a população, informações confiáveis sobre o vírus e sobre a COVID-19.

 

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WRITTEN BY

* Rômulo de Paula Andrade

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Professor, pesquisador. Inconformado. https://romuloandrade.academia.edu/ E-mail:romulopa@gmail.com

 

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