Por: Paulo Milet*

Vários anos de experiência nas áreas de Gestão e Qualidade, superpostos com 25 anos em EaD, me levaram a essas reflexões que listo abaixo.

Acredito que, apesar da catástrofe da pandemia, podemos (o Brasil) sair dela melhores do que entramos, principalmente pelo salto disruptivo que tivemos em termos de uso compulsório de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC).

Para o país o maior indicador da produtividade é o PIB per capita ou renda per capita no popular e para aumentar essa renda, precisamos gerar mais produção (ou diminuir a população, o que está fora de cogitação).

Listei 4 possíveis abordagens que podem nos fazer dar um salto nesse indicador nos próximos anos, principalmente partindo de algumas premissas: a) precisamos fazer mais com menos; b) precisamos usar intensivamente as TICs; c) Precisamos atualizar/ modernizar a forma como contabilizamos nossas riquezas e potencial; d) É possível avançarmos em ritmo muito superior aos previstos nos cálculos convencionais; e) As mudanças ocorridas nos últimos meses vão permanecer e no máximo sofrer alguns ajustes, mas retornar ao ponto que estávamos no inicio de março, nunca mais; f) Todo processo existente, desenvolvido pelo ser humano, foi algum dia a solução para um problema. Precisamos repensar a origem desse problema para obter soluções originais; g) Tivemos um ganho enorme com a quebra de uma serie de preconceitos com o uso de tecnologias que viriam paulatinamente e foram aceleradas (IA, RV, RA, nano tecnologias, drones, impressoras 3d, iot , block chain…)

 

Com base nessas premissas,  vamos às seguintes linhas de ação:

 

1- CONECTIVIDADE

Por conectividade, entenda-se a capacidade de se conectar à internet com velocidade e desempenho razoáveis.

Essa deverá ser nossa maior prioridade porque ela é transversal e habilitadora a todas as outras ações.

Só conseguimos dar um salto nesses últimos meses em termos de home office, EaD, Telemedicina e outros, porque tínhamos uma estrutura razoável nessa área, inexistente ha 10 anos atrás. Mas, mesmo assim, faltou muito. Na área de educação muitos alunos ficaram de fora  e, no trabalho remoto, apenas para um percentual da população foi possível aproveitar a oportunidade.

Não é difícil promover um mutirão nessa área, com prioridade e recursos, públicos e privados, fazendo com que tanto as operadoras, quanto as empresas de wifi e as fornecedoras de equipamentos (tablets, micros e smart fones) se alinhem com o objetivo concreto de propiciar Conectividade para 100% da população em menos de 1 ano!

Alguns exemplos podem ser inspiradores: O Peru distribuiu 1.000.000 de tablets para alunos (com uma população de cerca de 32. 000.000 de habitantes); O Google implantou um sistema de Transmissão de Internet 4G por balões na África (Quênia) a 20km de altura e disse que isso é apenas o início.

Certamente alinhando governo nos 3 níveis, academia, empresas e terceiro setor isso certamente será alcançado.

 

2- EDUCAÇÃO 

A Educação não é algo que tenha a ver apenas com salas de aulas e professores e com o acontecido nos 25 primeiros anos de nossas vidas. Devemos entender a educação como o conjunto formado por ensino e aprendizagem e a prioridade deve ser sempre o “aprendente”. Com as mudanças aceleradas no mundo de hoje (e que já vinham acontecendo de modo acelerado mesmo antes da pandemia), não podemos nos conformar em ter apenas uma fase na vida para aprender. O Objetivo deve ser o life long learning, com o aprendizado ocorrendo ao longo de toda a vida. Isso tem que ser um objetivo da nação; Profissões nas quais nos formamos há 10, 20 ou 30 anos atrás mudaram completamente ou mesmo desapareceram. Profissões que serão abraçadas pelas crianças de hoje, ainda nem foram criadas.

A ONU estabeleceu entre os seus Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável, para 2030, o ODS 4 que diz literalmente “Assegurar educação inclusiva, equitativa e de Qualidade e promover oportunidades de aprendizagem para todos ao longo da vida”.

Isso será impossível sem EaD!

Já vimos e todos os estudiosos estão chegando a essa conclusão, que o aprendizado pode ser igual ou melhor com EaD do que com aulas presenciais, principalmente para os adultos. Para as crianças temos que motiva-las com games e soluções do tipo “tik tok”. O papel dos professores deve mudar e deixar de ser o de transmissor de conhecimento para curador de conteúdo, com a obrigação de selecionar e organizar,  além de incentivar, orientar, motivar e provocar os alunos.

Muito do life long learning será pautado na andragogia (educação dos adultos) e na heutagogia (Auto aprendizado).

Nossos índices de escolaridade são péssimos (Dados do IBGE apontam que apenas 48% de todos os brasileiros com idade acima de 14 anos no primeiro trimestre de 2019 concluíram ao menos o ensino médio) e sempre que alguém envolvido com o problema propõe uma solução, ela passa por “apenas” consertar o processo e obter os resultados após vários anos. Frases do tipo ” Se resolvermos nossos problemas no ciclo de educação, nossos índices se igualarão aos índices da Espanha e Portugal em 30 anos! Ora! isso é muito pouco e desanimador.

O modelo educacional adotado é muito antigo. Salas com 30 alunos e um professor. Ciclos de vários anos. Separação das turmas por idade. Ritmo na base da média das turmas. Tudo isso não pode ser mantido dessa forma.

A tecnologia já permite o aprendizado no seu próprio ritmo (personalização do aprendizado) e ocorrendo em qualquer lugar (anyplace) e a qualquer momento (anyplace).

É perfeitamente possível lançar um programa de recuperação de evasão (dropout recovery) para que os alunos que evadiram do ensino fundamental e médio (nos últimos 10 ou 20 anos), possam completar seu ciclo. Mas nunca retornarão às salas de aulas presenciais. Modelos de certificação de conhecimento já existem (exemplo Encceja) e podem e devem ser acelerados.

É perfeitamente possível criar um programa de RVA (Reconhecimento, Validação e Acreditação) como os do UIL (UNESCO Institute of Life long learning) onde o “aprendente” estuda em qualquer lugar e horário e, quando estiver pronto, faz uma prova para validação e certificação do conhecimento, como hoje já é feito com certificações do tipo ISO, PMI, Toefl, Microsoft, Cisco, IBM, Google e muitas outras, até mesmo OAB).

É perfeitamente possível revolucionar nossos índices de escolaridade e de formação profissional, com o uso intensivo de EaD, de modo que, em menos de 10 anos, nossos índices de escolaridade cresçam para padrões europeus e a nossa formação profissional seja feita com foco nas profissões do futuro e não nas do passado.

Sabemos, e está provado,  que obviamente a renda cresce conforme a escolaridade e o preparo crescem.

 

3- TRABALHO

Na área do trabalho, muita coisa pode e vai mudar (já mudou). O sucesso do home office, mesmo executado de forma improvisada e compulsória, e com falta de estrutura técnica e participação das crianças nos trabalhos dos pais,  é irreversível.

Os ganhos foram claramente percebidos. Ganhos de produtividade por não obrigarem as pessoas a enfrentar algumas horas diárias no transito ou em viagens a negocio foram absorvidos e muitas empresas já planejam o não retorno. 

Um ganho muito interessante é a possibilidade de incorporação à nossa força de produção de população com mais idade e que não tinha disposição ou condições físicas para o deslocamento diário para centros das cidades. Pessoas com responsabilidade com crianças pequenas em casa, podem trabalhar em horários ajustados.

Com isso, além da qualidade da mão de obra registrada pelo aumento da escolaridade no item anterior, temos agora um aumento no volume de horas disponíveis para o trabalho.

Precisamos mudar o conceito da PIA (População em Idade Ativa), que só vai até os 65 anos).

Ficou claro? Com essas mudanças, a PEA (população Economicamente ativa) aumenta, porque os nem-nem (nem estudam e nem trabalham) passam a estudar ou trabalhar, os de mais idade podem continuar produzindo após os 65, as mães com obrigações com filhos pequenos ficam disponíveis para o trabalho e as pessoas produzindo para o país aumentam em muitos milhões.

Isso significa um aumento da produção e consequentemente da renda per capita. 

Mas não é só isso. A possibilidade de trabalhar em qualquer lugar e em qualquer horário, abre as possibilidades do trabalho em bairros, cidades, estados ou países antes não cogitados. As decisões de morar em algum lugar próximo do local de trabalho ou do estudo deixam de existir.  O mercado de trabalho se expande. 

E os empregos°? Será que teremos mais desemprego com as novas tecnologias? Não creio, não necessariamente em um país ainda em construção como o nosso.

Se tivermos a preocupação de direcionarmos os empregos para os setores de infra que precisamos, como habitação, saneamento, logistica, mobilidade.

Precisamos ajustar nossa legislação para permitir essas mudanças.

Controle de ponto, horário e carga horária perdem o sentido. A gestão passa a ser por “entregas” = resultado.

 

Em recente documento do governo português, lemos: “As economias do chamado Primeiro Mundo – ou Países Desenvolvidos – encontrarão no trabalho remoto o seu principal motor de produtividade e crescimento. Neste momento, de acordo com dados da Gartner, 81% dos funcionários das grandes corporações estão a trabalhar a partir de casa. A crise sanitária veio mostrar que é possível, especialmente no sector dos serviços”;

E nós? Vamos ficar atrás?

 

4- GOVERNO

Por governo estou considerando aqui os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e os três níveis (Federal, Estaduais e Municipais).

Vimos nos últimos meses alguns saltos muito importantes e que não podem ser perdidos. O Congresso Nacional tomando decisões com reuniões á distância. O que pode e deve ser incentivado, de modo que tenhamos semanas de 5 dias e não apenas 3 (terça, quarta e quinta) como  era o convencional. 

Tribunais e juízes, inclusive no STF, também tomando decisões e depoimentos com base em reuniões remotas.

E o executivo, processando 50 milhões de registros e identificando toda uma população que não aparecia nas estatísticas e programas governamentais.

Os indicadores de performance do país tem que ser atualizados e agilizados. Cálculo de inflação e desemprego com 2 meses de defasagem? Porque? Todas essas informações já estão em algum banco de dados e o acesso deveria ser muito mais rápido.

Toda organização sabe que a produtividade e qualidade aumentam se as informações chegam de modo preciso e ágil.

O Banco Central deve liderar um processo para praticamente extinguir o uso de papel moeda na sociedade (como fez a China) garantindo uma precisão de informações instantâneas sobre pagamentos e recebimentos. Com isso a negociação de ajustes e reformas tributárias fica muito mais clara (e somem as malas abarrotadas).

Os cálculos de inflação usam informações definidas a partir de Pesquisa de hábitos de consumo realizada 2 anos atrás. Será que o consumo de streaming está considerado ou ainda se considera a compra fisica de filmes e discos? o uso de celulares já tem o seu peso em detrimento do uso de telefonia fixa? o e-comerce está contemplado? 

Vamos pensar que as pessoas podem trabalhar em qualquer cidade ou estado e os serviços e produtos serão cada vez mais digitais. Tributos estaduais e municipais fazem sentido?

Medidas automáticas e desburocatizantes devem ser adotadas para que o pais possa acelerar. Criação de empresas, pagamento de tributos, relacionamento com governos podem ser muito otimizados. Os bancos de dados já tem a maior parte das informações. Cruzamentos com o sistema financeiro podem ajudar a tomada de decisões ágeis.

A eleições podem ser ajustadas. Com um modelo blockchain e conectividade, votações mais  frequentes podem ser incentivadas, sempre com confirmações de segundo e terceiros turnos e alinhando interesses da população com ações do executivo e legislativo.

 

Certamente,  com os avanços nesses 4 itens acima o país dará um salto de qualidade e produtividade.

 

Não quer dizer que os tópicos que ficaram de fora desse texto não sejam importantes:

Entre muitos outros, nos próximos artigos vou abordar o COMÉRCIO ELETRÔNICO que se impõe e conecta produtores e consumidores em marketplaces interligados, na SAÚDE precisamos reforçar o SUS (um dos melhores do mundo) e avançar com a Telemedicina. O  AGRONEGÓCIO tem a capacidade de alimentar o mundo e temos um sistema razoavelmente moderno, com tecnologias de geração de sementes, defensivos e biotecnologia, com destaque para os trabalhos da Embrapa.

 

Até mesmo o início de um programa de RENDA BÁSICA foi viabilizado. Vamos avançar!

 

*Paulo Milet.
Formado em Matemática pela UnB e pós graduado em adm pública pela FGV RJ.
Consultor e empresário nas áreas de Tecnologia, Gestão e EaD.

 

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