O PLATÔ NÃO EXISTE!

* Paulo Milet

Esse texto está sendo escrito em 08/08, data em que duas marcas fatídicas serão superadas: 100.000 óbitos e 3.000.000 de infectados!

Nos meus comentários vou usar sempre números arredondados para facilitar o entendimento do leitor e mostrar alguns pontos que não ficam muito claros nas reportagens e matérias na imprensa e nos dados oficiais.

Temos visto desde o início de junho que o número de óbitos diários causados pela COVID-19 está acima dos 1.000, segundo a média móvel de 7 dias. Isso significa 10 semanas seguidas com mais de 7.000 óbitos!

Ué? Então o Platô existe!

Parece, mas não é bem assim.

As pessoas e órgãos da imprensa dizem: Está tudo parado! Nada se move! Não temos solução! Até quando isso vai?

A resposta para isso é que o platô é uma ilusão gráfica/matemática dando a impressão de que está tudo parado nesse patamar. Mas não é verdade. O dito platô é o resultado de 27 curvas diferentes (uma por estado + DF). Em todas elas existe uma subida mais rápida, um pico e uma descida mais lenta (como aconteceu com França, Itália e Espanha).

Usei como base os quadros excelentes preparados por @Mauricio Garcia no linkedin (anexados) e para os quais basta uma análise visual para se perceber as nuances.

Os estados que iniciaram o processo em março/abril já estão na descendente.

São os estados de RJ, ES, AM, PA, AC, AP, RO, RR, MA, PI, CE, PE, SE, AL. O estado de  SP só não está nesse grupo porque o peso do interior (subindo) é tão forte quanto o peso da capital descendo. Isso quer dizer que SP também parece e passa a ilusão de estar em um platô estático.

Alguns estados já estão fazendo a curva logo após o pico: PB, DF, MT, PB, RN.

Quando se faz essa análise por estados, vemos que um grupo de 8 estados que começaram a subir depois, estão agora ainda na fase ascendente: RS, SC, PR, GO, MS, TO,  MG e BA.

Isso é preocupante porque esses estados tem cerca de 40% da população brasileira, ou algo perto de 80.000.000 de habitantes e são responsáveis por “apenas” 16% dos óbitos.

Um detalhe interessante: Agora que as TVs descobriram a média móvel, precisam descobrir uma outra maneira de definir  quais estados estão subindo, descendo ou estáveis, já que o cálculo de 15% pra mais ou menos em relação a duas semanas atrás gera informações distorcidas quando o estado finalmente chega no nível “planície”. Vide o estado do Amazonas, que, claramente, está em ótima situação e foi rebaixado na TV do nível “descendo” para o nível “estável” (ver gráfico do AM, o segundo na tabela anexa).

Como o tamanho da população dos estados em estabilidade ou descendo já soma mais de 120.000.000 (mais de 60% do país), a tendência geral é que afinal o tal platô comece a se mover para baixo. Tudo indica que agosto será melhor que julho e setembro melhor que agosto.

Os quadros anexados trazem uma informação adicional muito interessante. O número de óbitos por milhão. Nos estados que já estão estáveis ou descendo, esse número passa de 400 óbitos por milhão. Nos estados ainda na subida, o número está abaixo de 400. E nos estados próximos da planície o número está perto de 700/800. Por que? Ninguém sabe! Parece que nesses pontos o grau de contaminação ou imunidade associado ao grau de isolamento atinge um certo patamar “mágico”, que talvez possa ser explicado por imunidades anteriores obtidas com outras vacinas, remédios, gripes ou outras doenças (lembrar que cada número desses é o resultado da composição de várias cidades e bairros, alguns melhores e outros piores que esses).

E em relação ao número de casos? Chegamos a 3.000.000 de casos “oficiais”. Mas esse número significa muito pouco, já que a quantidade de testes não é divulgada e a subnotificação é notória. Com esse número de casos, dividido pelo numero de óbitos, temos um índice de letalidade geral, desde o inicio, de 3,3%.

Mas esse número está mudando. Estamos na terceira mudança de patamar do número de casos desde o final de maio, quando estava abaixo de 25.000/dia, passou um mês depois para 40.000/dia e agora está em 50.000/dia. Então está piorando?

Não! Como o número de óbitos está estável em 1.000/dia isso significa apenas que o número de testes está aumentando e a letalidade agora está em 2,0%.

A pesquisa da Universidade de Pelotas fala em algo perto de 1%. Parece um número mais correto, o que leva ao cálculo de 10.000.000 de casos.

O número de casos seria muito mais importante e útil desde que fosse usado para isolar, identificar, confinar e reduzir a contaminação, o que está sendo feito ainda muito pouco.

Com base nesse contexto todo, a noticia ruim é que os óbitos podem chegar a 140.000/160.000 (700 a 800/milhão de habitantes) até estabilizar em outubro.

Para encerrar, vamos às notícias boas.

Em primeiro lugar, para mim está claro que estamos na descida! Como os dados tem uma defasagem de pelo menos duas semanas no número de óbitos, a descida pode ter começado no final de julho.

Essa descida será mais lenta ou mais rápida e com mais ou menos óbitos dependendo de como nos cuidarmos antes da tal vacina chegar.

Em segundo lugar, as vacinas parecem estar realmente em processo acelerado de produção. Mais de 150 em estudo, com mais de 20 em testes com humanos, 6 em testes finais, sem contar com a dos russos que anunciaram a sua ainda para agosto (parece a corrida do Sputnik) e as dos indianos que são os maiores produtores mundiais de vacinas.

*Paulo Milet. Formado em Matemática pela UnB e pós-graduado em adm. pública pela FGV RJ – Consultor e empresário nas áreas de Tecnologia, Gestão e EaD.

 

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