Estamos em 15/08 e todos os dias desde 15/03 (nossa! 5 meses!), vemos números e estatísticas tratados (alguns mal-tratados) normalmente com o objetivo de maior clareza e de melhor informar.

Mas, alguns por má fé, outros por ignorância e a maioria mesmo por distração e falta de atenção deixam algumas nuances passar desapercebidas.

Vamos a elas:

A TAXA DE LETALIDADE – é uma conta simples.

Número de óbitos em relação ao total de casos.

Então a pergunta é: Qual é a TAXA DE LETALIDADE hoje?

Usando os dados do Portal Covid.saúde.gov, se temos hoje 106.523 óbitos (isso é assustador, depressivo e decepcionante!) em 3.275.520 casos, então essa taxa é de  3,25%, certo?

Não muito.

Desse total de casos, 784.695 ainda não tiveram desfecho (óbito ou recuperação). Os recuperados são 2.384.302, que somados aos óbitos, totalizam 2.490.825. Então a taxa real é de 4,25%.

Só que não!

Como hoje o número de óbitos foi de 1.060 e o número de casos 50.644, a taxa hoje seria 2,09%!

Mas não é bem assim.

O número de óbitos de hoje não tem relação com o número de casos de hoje.

Os casos de hoje vão provocar óbitos ao longo das próximas duas semanas (cerca de 17 dias).

Então o mais correto seria calcular a taxa dividindo os óbitos de hoje pelos casos de 17 dias atrás. 

Fiz esse cálculo usando a média móvel de 7 dias de óbitos de hoje pela média de 7 dias de casos desses 17 dias atrás. Resultado = 984 / 46.393 = 2,12%.

Viram? Não é fácil!

Todas as contas parecem certas.

Talvez o mais correto, em função de subnotificação e pouca testagem, seja o resultado da pesquisa da Universidade de Pelotas que apontou uma Taxa de letalidade próxima de 1%.

E o que podemos fazer com essa Taxa calculada ali em cima?

Podemos por exemplo, calcular o número de óbitos nas próximas duas semanas (ou 17 dias), seguindo a linha de raciocínio apontada.

Como o número de casos “em acompanhamento” (isso é, sem desfecho) é de 784.695 aplicamos 2,09% (o cálculo mais simpático) e chegamos a 16.400 óbitos para os próximos 17 dias, fechando o mês de agosto próximo de 123.000 óbitos, um pouco melhor que o mês de julho!

Claro que esses números não são totalmente confiáveis (e totalmente antipáticos!), mas é muito desmotivador trabalhar com números que mostram o passado e que comprometem os dias para a frente sem que possamos fazer mais nada em relação a eles.

Querem ver outro caso de números que enganam e confundem?

A Rede Globo tem feito um bom acompanhamento dos números, principalmente depois que descobriu a média móvel.

Melhor ainda quando passou a mostrar que o Brasil não é um platô sólido, mas sim uma combinação de dados dos 27 estados.

Mas tem usado um critério para definir os estados que estão subindo (vermelho), estáveis (amarelo) e descendo (azuis) que é o de uma variação de 15% para mais ou para menos em relação à média de duas semanas atrás, que não resiste a uma análise mais acurada.

Por exemplo, o AM, PA, CE e PE já passaram pelo pico e estão claramente quase chegando na planície, junto com outros 10 estados (vide meu artigo anterior), mas volta e meia aparecem como amarelo ou vermelho.

O que acontece é que, conforme a planície chega, não é mais possível descer mais de 15% em duas semanas.

Imagino que todos esperam que, quando a pandemia acabar, todo o mapa do Brasil estará azul, certo?

Errado! Quando todos os estados estiverem na planície, o mapa do Brasil estará todo amarelo, já que não oscilará 15% nem para mais nem para menos!

Por último, os CASOS RECUPERADOS.

Se a TAXA DE LETALIDADE está entre 3% e 1% como vimos acima, a TAXA DE RECUPERADOS vai estar certamente entre 97% e 99%!

Isso independente dos recuperados terem tomado cloroquina, água com açúcar ou manga com leite!

Encerrando, como visto no artigo anterior, os números mostram descida, lenta em agosto e mais acelerada em setembro. Se a BA começar a cair, a curva do NE despenca. E se MG e SP acelerarem a descida, a região sudeste também despenca. Resta o Sul que começou mais tarde.

As medidas tomadas nesses 5 meses, mesmo sem efetividade total, conseguiram evitar congestionamentos e mortes em UTIs ou a espera delas, e permitiram alguma gestão controlada da situação, mesmo faltando coordenação central.

Mas enquanto a vacina não chega, seja ela Russa, Chinesa, Americana, Inglesa, Alemã, Indiana ou Brasileira (eu tomo a primeira que aparecer) vamos nos cuidar e tentar evitar o máximo de circulação possível e quando for inevitável, com todas as precauções.

*Paulo Milet. Formado em Matemática pela UnB e pós-graduado em adm. pública pela FGV RJ – Consultor e empresário nas áreas de Tecnologia, Gestão e EaD.

 

 

 

 

 

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