Mais pistas sobre como o SARS-CoV-2 pode virar o sistema imunológico contra nós?

Nada de muito novo desde último maio!

Damian McNamara – 7 de setembro de 2020

História de degeneração macular relacionada com a idade ou trombocitopenia, trombose ou hemorragia estão, todas, associadas a maior risco de morbidade e mortalidade pela covid-19, sugerem novas evidências.

Esses achados são provenientes de pesquisas que visam descobrir as vias específicas pelas quais o desequilíbrio imunológico contribui para a gravidade da covid-19. Este aprofundamento nos mecanismos ocultos por trás dos desfechos clínicos mais desfavoráveis implica que diferenças nas cascatas do complemento e da coagulação do sistema imunitárioambas participam do processo inflamatório.

“Neste caso, parece que, pelo menos em parte, o SARS-CoV-2 (acrônimo do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) interfere na cascata do complemento e da coagulação – temos algumas dicas para os detalhes moleculares, nas quais estamos trabalhando ativamente –, que, por sua vez, leva o nosso sistema imunitário a se voltar contra nós”, disse o coautor sênior do estudo, Dr. Sagi Shapira, Ph.D., professor-assistente de sistemas biológicos (em microbiologia e imunologia) na Columbia University, nos Estados Unidos.

O primeiro autor Vijendra Ramlall, do Columbia’s Department of Biomedical Informatics and Department of Physiology & Cellular Biophysics, e colaboradores publicaram suas descobertas on-line em 03 de agosto no periódico Nature Medicine.

Os pesquisadores avaliaram 11.116 pacientes com suspeita de infecção por SARS-CoV-2 em um estudo observacional retrospectivo. Os pacientes procuraram o NewYork-Presbyterian/Columbia University Irving Medical Center entre 1º de fevereiro e 25 de abril. No total, 6.398 (58%) tiveram resultado positivo do teste.

A média de idade dos participantes foi de 52 anos e 45% eram do sexo masculino. Quase 27% tinham doença coronariana, 13% tinham diabetes tipo 2 e 12% tinham obesidade. No total, 88 pacientes tinham história de degeneração macular, quatro tinham deficiência do complemento e 1.179 tinham distúrbios da coagulação. Os pesquisadores consideraram a história de degeneração macular como um marcador alternativo das deficiências de ativação do sistema do complemento.

Achados mais importantes

Os riscos associados à degeneração macular e aos distúrbios da coagulação, incluindo o de evolução para ventilação mecânica e morte, foram independentes de idade, sexo ou história de tabagismo.

“Essencialmente, não encontramos evidências que o tabagismo (passado ou vigente) fosse um fator de risco significativo de evolução de ventilação mecânica ou morte”, observaram os pesquisadores.

Entre os participantes com história de degeneração macular, 14 pacientes foram intubados e 22 morreram.

Dr. Sagi e colaboradores também fizeram perfis genéticos transcricionais. Essa análise revelou respostas inflamatórias mediadas pelo interferon tipo 1 e pela interleucina 6, que fazem parte das vias do complemento e da coagulação.

Os pesquisadores também identificaram variantes genéticas nessas vias, possivelmente associadas a infecção mais grave pelo SARS-CoV-2. As descobertas genéticas exigem mais pesquisas para serem confirmadas, observaram os autores.

Uma visão mais abrangente?

Este não é o primeiro estudo a relacionar o desequilíbrio e a variação genética das vias do complemento e da coagulação com a infecção viral. Por exemplo, descobertas semelhantes feitas na dengue também se correlacionaram com doença mais grave. Isso sugere, observam os autores, que “as deficiências do complemento e as disfunções da coagulação podem representar fatores de risco de uma ampla gama de patógenos“.

“De forma mais ampla, acho que estamos aptos a alavancar a estrutura que criamos – que junta a biologia estrutural, a análise do prontuário eletrônico e a genômica – para desvendar a biologia básica, bem como a fisiopatologia estrutural, que contribuem para a morbidade e mortalidade de outras doenças infecciosas”, disse o Dr. Sagi.

Apesar do progresso, Dr. Sagi advertiu que ainda é muito cedo para mudar a prática clínica. “Embora haja indícios que os tratamentos existentes direcionados às vias do complemento e da coagulação possam ser promissores para os pacientes com covid-19, esses estudos estão em fase preliminar. Infelizmente, não chegamos ao ponto em que os resultados devam influenciar o atendimento.”

Enquanto isso, o pesquisador acrescentou: “A maior força dos médicos nestes casos é a prevenção. Em outras palavras, permanecer alerta para as doenças concomitantes dos seus pacientes, conversar com eles e os estimular a ficarem particularmente atentos aos fatores de risco, como as coagulopatias e as deficiências do complemento.”

“Uma vez infectados pelo SARS-CoV-2, os pacientes com história de deficiência do complemento e coagulopatia podem ser bons candidatos para as imunoterapias“, disse o Dr. Sagi.

Ensaios clínicos estão explorando o potencial terapêutico dos medicamentos existentes que têm como alvo o sistema do complemento e as vias da coagulação, disse Dr. Sagi. “Estamos ansiosos para ver se podemos converter o que aprendemos em um tratamento valioso.”

Descobertas complementares?

“Não acho isso particularmente impactante”, disse o Dr. Benjamin tem Oever, Ph.D., professor de microbiologia da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, nos EUA, quando convidado a comentar o estudo.

Todas essas descobertas foram descritas bem antes desta publicação. Sabemos sobre o complemento e a coagulação em resposta ao SARS-CoV-2 desde maio“, acrescentou Dr. Benjamin, autor sênior em um estudo publicado on-line em 28 de maio no periódico Cell avaliando o desequilíbrio das respostas do hospedeiro à covid-19.

O Dr. Sagi respondeu que embora o artigo revisado por especialistas tenha sido publicado on-line no periódico Nature Medicine em 03 de agosto, a pré-impressão do estudo foi publicada no início de maio. O pesquisador também indicou que o papel do complemento e da coagulação na infecção pelo coronavírus foi compreendido “muito antes desta pandemia sequer ter começado”, em estudos com pequenos animais e pesquisas em humanos explorando a infecção por SARS-1 e MERS.

O Dr. Sagi Shapira e o Dr. Benjamin tenOever informaram não ter conflitos de interesses.

Nat Med. Publicado on-line em 03 de agosto de 2020. https://www.nature.com/articles/s41591-020-1021-2

 

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