A morte e os meios de comunicação

O artigo sobre como os meios de comunicação tratam a morte foi apresentado na tarde da última segunda feira, dia 09 de novembro 2020 por um amigo jornalista e sociólogo, professor aposentado da Universidade Federal Fluminense, João Batista de Abreu no Congresso da ALAIC (Associação Latino-americana de investigadores de comunicação) – esse Congresso estava previsto para acontecer em Medelin em junho, mas com a pandemia teve que ser adiado e virou on line.

Pedi sua autorização para publicação em nossa área de conteúdo selecionado e como fiquei em dúvidas se o tema teria a ver com Saúde e Política, ou Saúde ou Saúde e Educação preferi deixa-lo em Destaque para apreciação dos colegas que trabalham na saúde.

Todo comentário será bem-vindo!

Boa leitura!

Morrer, verbo intransitivo –

Discursos e referenciais sociais no noticiário sobre mortes na imprensa brasileira

Morrer, verbo intransitivo –

Los discursos y referenciales sociales en el noticiero sobre muertes en la prensa brasileña

To die, intransitive verb

João Batista de Abreu 

 Professor titular do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (aposentado). Jornalista e sociólogo, com doutorado em Comunicação pela UFRJ e especialização em rádio por Ciespal / Radio Nederland Training Centre. Membro da comissão de educação da Associação Brasileira de Imprensa. Trabalhou no Jornal do Brasil, Rádio Jornal do Brasil, O Globo, TV Globo, TV Educativa, Jornal do Commercio e Folha de S. Paulo, entre outros. Brasil. <joaobajr@uol.com.br>

“A vida é o fio do tempo / A morte é o fim do novelo. ”

Paulo Cesar Pinheiro

Em sete meses de pandemia 149 mil brasileiros morreram, três vezes o número oficial de vítimas nos seis anos da Guerra do Paraguai (1864-1870), e do que a gripe espanhola, que matou cerca de 50 mil pessoas no país em três anos (1918-1920).

Na Segunda Guerra Mundial, 471 pracinhas e oficiais não voltaram da Itália.

Desde março, a morte ocupa as manchetes do noticiário, com números, dados estatísticos e relatos pessoais.

Todos os dias recebemos em casa o boletim com a evolução do número de óbitos. Expressões como “média móvel”, “curvas ascendente e descendente” e “platô” entraram para o cotidiano de espectadores e internautas.

A morte virou carro-chefe do jornalismo.

A paródia do título com a prosa de Mário de Andrade no romance Amar, verbo intransitivo talvez não se aplique a artigos acadêmicos, mas o desafio aqui é demonstrar que o ato de morrer se reveste de características jornalísticas, de acordo com as circunstâncias, a dimensão, as condições em que ocorrem e, sobretudo, a identidade do indivíduo.

No jornalismo, são os complementos que indicam a importância do ato e do fato.

O empresário do mercado financeiro que cai do alto de um prédio luxuoso no centro da cidade, o acidente aéreo com 200 vítimas, a mulher que leva 28 facadas do marido ciumento, a morte repentina do cantor famoso; todas essas circunstâncias referenciam a narrativa e a tornam dotada de valor-notícia incontestável.

No entanto, a lei divina e a dos homens nos ensinam que todos os seres humanos devem ser considerados iguais. Portanto, a morte de um cidadão, independentemente de cor, sexo, idade, origem social e religião, deve ser percebida como uma perda semelhante a todas as outras. Mas na prática sabe-se que não é bem assim.

A morte editorializada tem vida própria.

Entendida como tabu por parte da imprensa, a morte costuma merecer tratamento diferenciado na narrativa jornalística.

Ao longo dos séculos a sociedade ocidental, de forte influência cristã, desenvolveu uma série de rituais e interdições.

Os meios de comunicação alternam comportamentos distintos e narrativas extremas. Muitas vezes a mídia a vê com respeito e distanciamento, como nos obituários de pessoas ilustres; em outras ocasiões o sensacionalismo ultrapassa os limites do bom senso, invade a privacidade e trata a morte como espetáculo circense.

Este trabalho pretende interpretar o discurso jornalístico que a mídia hegemônica, particularmente a mídia brasileira, produz nos casos de óbitos de cidadãos comuns e de pessoas consideradas celebridades.

Até que ponto questões de classe e prestígio influenciam a narrativa.

O artigo deseja investigar ainda o tratamento editorial dos atentados considerados suicidas, em que a morte do autor é entendida como banalidade, e os suicídios propriamente ditos, que costumam ser silenciados sob o argumento de que a divulgação contribuiria para a repetição de atos semelhantes.

O referencial teórico parte da análise de conteúdo, utilizando os conceitos de tempo, espaço e História em narrativas que envolvem a morte.

O jornalismo a trata como algo episódico, que se encerra nele mesmo. O assunto ganha suítes apenas nos casos de óbitos com conotação violenta ou suspeita. Aqui temos um processo dialético entre a morte jornalística e a da vida cotidiana, que tende a ser vista como processo. Assim, uma criança que morre no trânsito tende a merecer mais destaque do que o óbito diário de centenas de vítimas de desidratação e desnutrição no interior. Mais do que um relato de perda, a morte em série de crianças anônimas por doenças causadas pela miséria se reduz a uma estatística.

Claro que o registro do atropelamento é mais do que válido e, se for consequência da falta de sinalização no local, a matéria deve alertar para essa carência. O crescimento de bairros cortando vias expressas nem sempre conta com passarelas para garantir segurança à travessia de pedestres.

Da mesma forma é de extremo mau gosto e frieza quando uma pessoa cai de um prédio em obras e o corpo permanece horas à espera do rabecão policial e a imprensa destaca o engarrafamento provocado pelo suposto acidente. “Morreu na contramão atrapalhando o trânsito”, ironiza Chico Buarque de Holanda. Deve-se criticar a demora da chegada da perícia ou da remoção. Entretanto o destaque para o engarrafamento é o que vemos quase todos os dias no noticiário, sobretudo das rádios. A morte vira serviço de trânsito.

Vivemos um período de banalização e conformismo com a morte, inclusive aquela de origem violenta. Assim, os feminicídios, os abusos policiais na periferia, escamoteados por autos de resistência forjados, a guerra de facções na favela que põe em risco a vida de inocentes, incursões policiais com óbitos – seja de que lado for – na favela, agressões a mulheres vítimas de violência doméstica tendem a ser banalizadas por autoridades e parte da mídia. A morte nada mais é do que um espetáculo, como no Coliseu de Roma ou nas execuções em praça pública na Paris medieval. Parece que retrocedemos alguns séculos.

No final da década de 1970 e início dos anos 80 jornais ditos populares do Rio de Janeiro e de São Paulo estampavam na capa fotos de vítimas sem cabeça assassinadas na periferia por grupos precursores das milícias. As vendas aumentaram e a edição macabra virou marca registrada deste tipo de imprensa, até que o comando da Polícia pediu a diretores de jornais que suspendessem tal expediente.

Os jornalistas que acompanham o mundo cão das grandes cidades da América Latina enfrentam desafio acessório. Aprender a lidar com esse cotidiano e simultaneamente não perder a indignação. Em agosto de 2019, a morte por atiradores de elite da Policia Militar de jovem de 19 anos que ameaçava os passageiros de um ônibus, na Ponte Rio-Niterói, foi comemorada pelo governador do Rio de Janeiro, ex-juiz federal.  Nas redes sociais a produtora do RJTV Amanda Prado publicou o relato de inconformismo de uma jornalista que não perdeu a sensibilidade.

Conversei com uma professora do Willian, o sequestrador do ônibus na ponte Rio-Niterói. Parecia a voz calejada de uma das minhas velhas professoras do outro lado da linha, profundamente abalada e triste pelos rumos que tomou o menino calado e arredio. “Como somos impotentes”, dizia. Dentre todas as coisas que ela contou, destaco o sentimento por trás da frase “ele era uma pessoa que gritava por ajuda”, desde a adolescência numa escola pública de São Gonçalo, região metropolitana do Rio.

“Tô de coração partido. É muito doloroso perceber o quanto nós, professores, detectamos desde cedo alguns problemas, mas podemos fazer tão pouco. Ele era muito introvertido, não gostava de ir para o recreio, ficava sempre dentro da sala”

20 anos tinha Willian no momento em que curvou o corpo colado à porta do ônibus, atingido por uma sequência de disparos de todo tipo. Mataram um homem várias vezes na avenida, renegado desde o princípio por cada aplauso, cada eco de discurso, cada estilhaço de palavra que comemora com gritos de euforia o horror.

Ainda não consegui digerir. Porque eu sei que ele não era uma pessoa ruim. Infelizmente o que aconteceu com ele poderia ter sido evitado se ele tivesse recebido toda a ajuda que o ser humano precisa pra encontrar o equilíbrio e aguentar as pressões da vida”, finalizou a professora, num desses dias em que o peso do mundo inteiro desaba nas minhas costas suadas de jornalista. (Prado, 2019)

Quantos Williams ainda ocuparão o noticiário de todos os rincões do país para merecer a atenção do poder público e da sociedade antes da tragédia anunciada? O drama vivido por jornalistas como Amanda se assemelha ao de profissionais de saúde que trabalham em centros de tratamento intensivo. Em um lugar em que mais se perde do que se ganha, é preciso desenvolver uma defesa que permita voltar para casa e retornar ao trabalho no dia seguinte após um plantão estressante, sobretudo em tempos de pandemia. Essa armadura, porém, não pode abrir mão da sensibilidade, a qual todo profissional de saúde, seja médico, enfermeiro, técnico de enfermagem, fisioterapeuta, dentista, nutricionista, psicólogo e motorista de ambulância, deve preservar, sob pena de perder a capacidade de se indignar. O mesmo comportamento deve ter o repórter e o produtor de matérias policiais. Vale incluir também o repórter fotográfico, o cinematográfico, o editor e o editor de imagens. Há momentos em que o close de seis segundos da mulher chorando a perda do filho vira invasão de privacidade.

A pandemia do novo coronavírus acentuou a tentativa de “naturalizar” a morte de vítimas da Covid 19. Nas telas da TV, no rádio, portais de notícias e nas chamadas dos jornais aparecem como números frios, contabilizados e comparados com o quadro verificado na véspera ou na semana anterior. A estatística é uma ciência fundamental para que as autoridades de saúde pública acompanhem a evolução da doença na população, de acordo com as regiões e faixas etárias, mas a forma como os resultados são recebidos e repetidos à exaustão contribui para desenvolver certa rotina mórbida, que só é abalada quando entre as vítimas estão pessoas da família ou celebridades ou quando se põe no ar a história de uma perda. É como se leitores criassem uma espécie de capa simbólica para se proteger do desgaste mental e da depressão.

Na peça Édipo Rei, de Sófocles, o monarca desabafa sobre a responsabilidade que recai sobre a autoridade máxima de Tebas, Grécia Antiga, diante do sacrifício de seu povo e as decisões a tomar.

Ó meus filhos, tão dignos de piedade! Eu sei, sei muito bem o que viestes pedir-me. Não desconheço vossos sofrimentos; mas na verdade, de todos nós, quem mais se aflige sou eu. Cada um de vós tem a sua queixa; mas eu padeço as dores de toda a cidade, e as minhas próprias. Vossa súplica não me encontra descuidado; sabei que tenho já derramado abundantes lágrimas, e que meu espírito inquieto já tem procurado remédio que nos salve. E a única providência que consegui encontrar, ao cabo de longo esforço, eu a executei imediatamente. Creonte, meu cunhado, filho de Meneceu, foi por mim enviado ao templo de Apolo, para consultar o oráculo sobre o que nos cumpre fazer para salvar a cidade. (Sófocles, s.d., p.3)

A preocupação de Édipo com o destino dos cidadãos de Tebas se contrasta com o negacionismo de alguns chefes de Estado nos tempos atuais. Eles se recusam a encarar de frente a gravidade da pandemia e insistem em propagandear medicamentos milagrosos. Para estes “monarcas”, a economia está em primeiro lugar na linha de prioridades da administração pública. Vale lembrar o conceito de necropolítica desenvolvido por Achille Mbembe (2003). Com base na biopolítica foucaultiana, o filósofo camaronês faz uma reflexão sobre a relação entre biopoder, crise sanitária, racismo e poderio bélico e financeiro para mostrar de que forma certas comunidades estão ameaçadas de morte.

“O biopoder parece funcionar mediante a divisão entre as pessoas que devem viver e as que devem morrer. Operando com base em uma divisão entre os vivos e os mortos, tal poder se define em relação a um campo biológico – do qual toma o controle e no qual se inscreve. Esse controle pressupõe a distribuição da espécie humana em grupos, a subdivisão da população em subgrupos e o estabelecimento de uma cesura biológica entre uns e outros. Isso é o que Foucault rotula com o termo (aparentemente familiar) “fascismo” (MBEMBE, 2018, pag. 17)

 

De acordo com o filósofo camaronês, a raça foi um dos fatores determinantes das políticas do Ocidente para impor a dominação, estabelecendo o conceito (melhor seria dizer preconceito) de superioridade de certas raças, o que justificaria desumanidade sobre povos vistos como inferiores. Esse divisor acaba por estabelecer que há vidas que valeriam mais do que outras.   

Fim do novelo

A maioria das religiões compreende a morte como rito de passagem, uma transição. Os cristãos a entendem como o caminho do céu, os espíritas creem na reencarnação. Portanto a morte é vista como passageira, mas isso não significa que se deixe de lado o sentimento de perda. Nesse sentido, diz o poeta, seria o fim do novelo, como se a vida fosse um permanente desfiar.

Algumas sociedades tradicionais na América Latina entendem a morte, não como algo triste, mas como a passagem para uma vida melhor e mais alegre. No México, o Dia dos Mortos – 2 de novembro – é motivo para festas populares. A população vai ao cemitério homenagear os parentes que se foram e leva a comida preferida deles. A personagem Santa Muerte é reverenciada por comunidades populares, consequência do sincretismo religioso que mescla crenças católicas e indígenas. “Nosso culto à morte é um culto à vida”, explica o escritor mexicano Octavio Paz, Prêmio Nobel de Literatura.  Para estas comunidades mestiças, a verdadeira morte não ocorre com o óbito, mas pelo esquecimento. A memória de parentes e amigos seria a forma de prolongar a vida.

A tradição religiosa dos índios Sanomas – subetnia dos Ianomamis – em Roraima, na fronteira com a Venezuela, também obedece ao princípio da relação dialética entre memória e esquecimento. Eles jamais podem ser sepultados, mas sim cremados, após longo ritual na aldeia em que os nomes e objetos pessoais do morto são anulados da memória social. Durante a pandemia, crianças sanomas com pneumonia foram levadas para um hospital de atendimento a indígenas em Boavista, morreram – provavelmente vítimas da Covid 19 – e os corpos foram enterrados para evitar contaminação. A decisão das autoridades sanitárias em Roraima revoltou as mães das crianças.

A História mostra que pessoas morrem e depois “ressuscitam” como heróis. O tempo apaga cicatrizes, reconfigura trajetórias e constrói novas narrativas de acordo com o momento presente. Figuras que realizam feitos contrários ao poder vigente na época e que, após décadas ou até séculos, ressurgem como heróis. Para citar três exemplos, o filósofo italiano Giordano Bruno, morto na fogueira pela Inquisição em 1600 por preconizar o cosmo infinito, o líder de origem inca Túpac Amaru, morto e esquartejado em 1780 no Peru pela Coroa Espanhola, e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, enforcado e esquartejado pela Coroa portuguesa em 1792 por defender a independência do Brasil.

Mas os “dogmas” seguidos pela imprensa ocidental, sobretudo as agências internacionais de notícias, tendem a valorizar muito mais a morte de pessoas brancas do Hemisfério Norte do que negros e mestiços do Hemisfério Sul.

O mundo tem em torno de 7 bilhões de habitantes, distribuídos em cinco continentes. Mas as principais agências de notícias só têm olhos para os países do Hemisfério Norte.  A fome, as endemias, a miséria na África, Ásia e América do Sul passam de passagem pelo noticiário internacional. Não pertencem à agenda setting, a menos que celebridades sejam atingidas pela desgraça. O jornalista irlandês Alexander Cockburn tinha razão: para as agências, a vida de um norte-americano parece corresponder a mais de 1 mil habitantes da África subsaariana.

Cockburn publicou em 1976 o livro “Stop the presses, I want to get off!” (“Parem as máquinas, eu quero descer!”), em que cria uma escala fictícia de valores para registros de óbitos. Apesar da fina ironia de Cockburn, o critério não estaria muito longe do real. O texto foi traduzido em 1982 pelo jornalista Argemiro Ferreira e consta no livro Informação e Dominação: a dependência informativa do Terceiro Mundo e o papel do jornalista brasileiro, editado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro.

Os editores devem se lembrar que há extensas partes do mundo nas quais as pessoas não existem a não ser em grupos de mais de 50 mil. Antes de chegar a tais hordas, comecemos por cima. A morte de um americano famoso pode sempre ser registrada, ainda que tenha ocorrido nas circunstâncias menos relevantes. Se o americano for um ilustre desconhecido, é preciso que morram pelo menos dois ou três (ou apenas um, desde que em circunstâncias bem singulares) para que mereça alguma atenção. No caso dos negros, o número tem de ser muito maior. Na categoria seguinte, vêm os europeus do norte. Conte dez deles para cada americano. Depois, temos os europeus do sul (italianos, espanhóis, portugueses, gregos). Conte uns 30 deles para cada americano. Depois, os turcos, persas e latino-americanos. Conte uns cem destes para cada americano. Alguns perfeccionistas incluiriam também os africanos do norte nessa categoria. Em seguida, vêm os asiáticos do sudeste. Duzentos e trezentos para cada americano. Alguns também colocariam aqui os indonésios. Mas, nesse caso, suponha que a contagem deva se elevar a uns mil por americano, já que 800 mil indonésios foram massacrados no golpe de 1965 sem maior repercussão. Nessa altura, chegamos aos limites em números e passamos à categoria seguinte – a das hordas incalculáveis. São os indianos, africanos e chineses. Em relação a eles, já não se concebe qualquer número. As pessoas somente começam a se interessar se falarmos em 50 mil a 100 mil mortos. Especialistas calculam que somente uns 50 mil indianos seriam capazes de igualar, em termos de notícia, ao total de 10 americanos. (Cockburn, apud Ferreira, 1982, p. 10-1)

Até mesmo o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), impulsionado pelo assassinato do agente de segurança desempregado George Floyd por policiais do Texas, se enquadra nesta proporção macabra. A violência contra cidadãos negros nos Estados Unidos desperta revolta e ganha espaço no noticiário internacional, sobretudo quando registrada em imagens, mas atos semelhantes praticados na África do Sul durante o regime do Apartheid só conquistavam manchetes quando eram realizados em massa.

A seleção das palavras tem importância vital na narração jornalística. O universo vocabular da língua portuguesa constitui um leque quase infindável de expressões, em princípio vazias de sentido. Ganham peso, lugar social, de acordo com a apropriação que os sujeitos fazem delas. Remetem a um conceito, situado historicamente no tempo e no espaço. “Dizer é diferente de afirmar, argumentar não é o mesmo que alegar, matar nem sempre é assassinar. ” (Abreu, 2000, p. 150)

Os verbos que expressam a ideia de morte indicam a posição política da fonte, que pode ou não ser encampada pelo narrador. Assim, em uma operação de guerra, o porta-voz das forças militares usará o eufemismo “neutralizar” quanto ao destino dos adversários. Não se sabe se morreram, foram feridos ou presos, mas a operação será vendida como bem-sucedida. Durante a luta armada na América Latina, nas décadas de 1960 e 1970, militantes de esquerda recorriam ao verbo “justiçar” nos comunicados quando matavam instrutores de tortura. A morte pode ter várias narrativas. A escolha do verbo depende do lugar de fala.

A morte programada

O caso mais marcante de suicídio registrado no Brasil é o tiro no peito desferido pelo presidente Getúlio Vargas na madrugada de 24 de agosto de 1954 em seus aposentos no Palácio do Catete, em meio a uma grave crise política que exigia seu afastamento. “O tiro que mudou a História”, sustentam alguns historiadores pela comoção que se apossou do país, adiando por 10 anos o golpe militar que se desenhava em meados de 1954.  Antes dele também Alberto Santos Dumont – nosso inventor do 14 Bis – decidira pôr fim à vida em 23 de julho de 1932, enforcando-se num hotel em Guarujá, no litoral paulista, após anos sucessivos de depressão.   A primeira versão dos médicos para a causa mortis, porém, falava em infarto.

Claro que os dois episódios mereceram destaque na imprensa pela relevância dos dois personagens, mas de todos os tipos de morte – violenta ou natural – a que mais costuma merecer o silêncio por parte dos meios de comunicação é o suicídio. Há exceções quando se trata de celebridades, ou de alguém que escolheu uma forma espetaculosa ou inédita para pôr fim à vida – por exemplo, o primeiro suicídio na Ponte Rio-Niterói, em 1974 – ou aqueles que têm conotação político-religiosa, como os monges budistas que se imolavam em público para protestar contra a Guerra do Vietnam, assim como o estudante Jan Palach, em 1967, em protesto contra a invasão da Tchecoslováquia por tropas do Pacto de Varsóvia, durante a Primavera de Praga. Existem ainda os suicídios forjados, como o do poeta inconfidente Cláudio Manuel da Costa, na prisão de Vila Rica – hoje Casa dos Contos de Ouro Preto – o do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, no DOI-CODI do 2º Exército em São Paulo, em outubro de 1975 e em janeiro de 1976 respectivamente. Nos três casos, o Estado acobertou o crime praticado por agentes do próprio Estado.

Outro caso vinculado à ditadura civil-militar é o do frei dominicano Tito de Alencar, que fazia parte do grupo de religiosos que oferecia apoio de retaguarda a Carlos Marighella, da Ação Libertadora Nacional, em São Paulo. Após a morte do líder guerrilheiro pelos órgãos de segurança em 1971, o frade foi preso e brutalmente torturado pelo delegado do DOPS Sérgio Paranhos Fleury. Trocado pelo embaixador suíço raptado em 1971 – junto com outros 69 presos políticos – Tito seguiu para o exílio no Chile e depois na França, mas os horrores das sevícias o mantiveram preso ao passado. Aos 27 anos decidiu pôr fim à vida enforcando-se nos jardins do convento de Saint Marie de La Tourette, perto de Lyon. Para ele, a morte significava a libertação dos tormentos. “Nos dias primaveris colherei flores para meu jardim de saudade. Assim, exterminarei a lembrança de um passado sombrio”, deixou por escrito em 12 de outubro de 1973.  (DUARTE e MEIRELLES, 2014, pag 31)        

Também entrou para a História a greve de fome dos militantes do IRA (Exército Republicano Irlandês), em 1979. Cumprindo pena numa penitenciária em Londres, eles reivindicavam o status de presos políticos, contrariando decisão da primeira-ministra Margaret Thatcher. A primeira morte, de Bob Sands, ganhou destaque na imprensa internacional. A segunda mereceu um registro, assim como a terceira e a quarta. A partir daí os óbitos causados pela greve de fome se tornaram rotina e caíram no anonimato. Na 13ª morte, o IRA suspendeu o protesto porque não mais comovia a opinião pública.

Vale registrar ainda a diferença de tratamento dispensada pelas agências ocidentais de notícias aos grupos armados – soldados ou guerrilheiros – que participam de ações de risco extremo. Assim, seguindo os padrões hollywoodianos adotados pelos meios de comunicação, a morte do recruta ferido que fica de tocaia à espera do inimigo em contingente maior para que os companheiros da patrulha possam escapar é narrada como ato heroico. Mas, ao contrário, o jovem muçulmano que dirige um carro-bomba que explode uma unidade militar do ocupante estrangeiro de seu território é classificado como “suicida” pelas agências. 

Ficou famosa a frase do general William Westmoreland, comandante das tropas dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã (1964-1975, com 3,5 milhões de mortos, dos quais 65 mil militares norte-americanos), registrada no documentário Corações e mentes, do cineasta Peter Davis. Numa espécie de desabafo, Westmoreland chegou a afirmar que os guerrilheiros vietcongues pareciam não demonstrar amor à vida pela forma corajosa como se dedicavam ao combate.  Repete-se o arquétipo hollywoodiano: os soldados norte-americanos lutam como heróis; os vietcongues, como suicidas.

 

 

Considerações finais

Estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) mostram que anualmente 800 mil pessoas escolhem dar cabo à vida. É como se o equivalente a toda a população de Natal (RN) desaparecesse a cada ano. Entre os jovens o suicídio se apresenta como a segunda maior causa. China, Índia e Estados Unidos lideram. O Brasil está em oitavo lugar. Os últimos dados apresentados pelo Ministério da Saúde referem-se a 2016, quando 11.433 suicidaram, registrando um crescimento de 2,3 comparado ao ano anterior. O percentual é de 9,2 casos por 100 mil habitantes, mas nas comunidades indígenas a relação salta para 15,2, dos quais 48% estão na faixa etária entre 10 e 19 anos.  É difícil negar que o mundo vive uma epidemia de suicídios.

Os dados oficiais põem em xeque a ideia predominante de que a omissão do registro pela imprensa contribui para evitar a propagação de suicídios. Os números servem para acentuar a importância da expansão de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), inclusive nas comunidades indígenas, para compreender as razões e buscar ações preventivas coordenadas. Mas é preciso entender determinadas situações adotadas por concessionários, como a Companhia do Metrô do Rio de Janeiro, que silencia e prefere atribuir a “problemas técnicos na linha” quando ocorre uma tentativa de suicídio nos trilhos eletrificados. Talvez a facilidade da ação justifique o silêncio dos operadores de transporte. O assunto exige um amplo debate entre profissionais de saúde mental e de Comunicação, com a participação das empresas jornalísticas.

No livro Morreu na contramão: o suicídio como notícia, o jornalista e professor da PUC-RJ Arthur Dapieve observa que, em determinadas circunstâncias, o suicídio possui características próprias do discurso jornalístico, como o inusitado e a ruptura com a “ordem natural” das coisas. Dispensa conhecimento profundo para compreender a narrativa em sua integralidade. O ato em si se reveste do que Roland Barthes chama de fait-divers, ou seja, a notícia que se fecha nela mesma. Para o semiólogo francês, que morreu em 1980 em Paris num atropelamento que levantou suspeita de suicídio, “se os acontecimentos se repetem é porque eles querem significar”. (Barthes, apud Dapieve, 2007, p. 163).

O ideal seria se o discurso jornalístico pudesse convencer o leitor de que cada ato é um fato isolado, mas não seria essa uma utopia? O discurso é o que está subjacente à narrativa, que muitas vezes prefere enfatizar o inquestionável. Descrições como “foi encontrado morto”, “caiu de um prédio” ou “ingeriu medicamentos em excesso”. Uma das grandes dificuldades no tratamento jornalístico do suicídio diz respeito ao descompasso entre processo e episódio. O ato de pôr fim à vida costuma fazer parte de um lento, doloroso e geralmente silencioso processo decisório, daí a dificuldade de a medicina produzir diagnósticos preventivos. Não há sintomas, apenas sinais. O psiquiatra Ricardo Braga, especialista em terapia familiar, vê o suicídio como o lance final de uma história anterior. “Suicídio é sinal de uma doença e é multifatorial. O médico precisa aprender a ouvir o silêncio”. 

Por seu lado, o jornalismo tem dificuldade para trabalhar com o discurso do silêncio (aqui vale frisar que silêncio não é necessariamente sinônimo de omissão). A observação etnográfica limita-se à descrição de reações e comportamentos explícitos, sem conclusões precipitadas. Jornalisticamente pode-se dizer que um homem se pendurou na janela de um edifício de 10 andares, mas será mesmo possível afirmar que ele tentou o suicídio? Não estaria ele consertando a veneziana e limpando as vidraças? É preciso que exista verbalização do próprio homem ou de uma testemunha. Dentro do mais absoluto pragmatismo, a narrativa jornalística registra e relata o episódio em si, e na maior parte das vezes se cala sobre as causas.  

Para Dapieve, “transplantar a morte voluntária da categoria dos fait-divers para a das informações políticas implica promovê-las aos enunciados que não se esgotam em si e que se relacionam com o resto da vida, numa grande narrativa, da qual todos fazemos parte”. (pp. 163-164)

Hoje a sociedade intensifica a competitividade e a complexidade das relações humanas. Todos, principalmente os jovens, precisamos mostrar a nós mesmos e aos familiares que “vencemos na vida”, o que pode representar uma vitória de Pirro. Afinal, o que significa “vencer” em uma sociedade baseada na exclusão social? Reduzir a tendência ao suicídio exige a revisão de nossos conceitos de felicidade e conquista, enfatizar o coletivismo e a solidariedade, enfim lutar pelo bem comum. Os meios de comunicação são personagens essenciais nessa batalha pela vida. Como ensina Dom José Pepe Mujica, cuja experiência de vida vai da luta como guerrilheiro tupamaro à presidência do Uruguai, em seu recado às novas gerações: “triunfar na vida não é ganhar, triunfar é se levantar e começar de novo cada vez que se cai”.

 

Referências

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Brum, E. (2020). Mães Yanomami imploram pelos corpos de seus bebês. El País. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-24/maes-yanomami-imploram-pelos-corpos-de-seus-bebes.html

 

Calderón, V. & Peinado, M. L. (2014). Onze razões pelas quais o México vive a morte como nenhum outro país. El País.  Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2014/11/01/sociedad/1414853802_175512.html

 

Dapieve, A. (2007). Morreu na contramão: o suicídio como notícia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

 

DUARTE, L. e MEIRELLES, C. (2014). Um homem torturado – nos passos de frei Tito de Alencar, Rio de janeiro, Civilização Brasileira.

Encontros O Globo 95 anos da série Saúde e Bem-estar, tema O Suicídio, 26/9/2020 https://oglobo.globo.com/sociedade/encontros-globo-discutiu-prevencao-ao-suicidio-1-24661896

 

Ferreira, A. (1982). Informação e Dominação: a dependência informativa do Terceiro Mundo e o papel do jornalista brasileiro. Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro.

 

Mbembe, A. (2016). Necropolítica. Artes e Ensaios, n. 32. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993/7169

 

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Secretaria de Vigilância em Saúde − Ministério da Saúde. (2017). Suicídio. Saber, agir e prevenir. Boletim Epidemiológico, volume 48, n. 30. Disponível em: http://www.saude.gov.br/images/pdf/2017/setembro/21/2017-025-Perfil-epidemiologico-das-tentativas-e-obitos-por-suicidio-no-Brasil-e-a-rede-de-atencao-a-saude.pdf

 

Sófocles. (s.d). Édipo Rei. Peça teatral da Grécia Antiga escrita por volta de 427 a.C. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2255 / http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000024.pdf

 

Discurso de despedida do Senado uruguaio de José Mujica, https://brasil.elpais.com/internacional/2020-10-23/o-emotivo-discurso-de-jose-mujica-em-seu-adeus-a-politica-triunfar-na-vida-nao-e-ganhar-e-se-levantar-e-comecar-de-novo.html

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