Estudar pode ser chato, aprender, não – Paulo Barreira Milet*

Capa: Photo by Tim Mossholder on Unsplash

Aprender é um momento mágico que acontece quando a informação vira conhecimento. Isso é uma transformação que ocorre dentro do cérebro humano. É um click! Aquelas palavras encadeadas que procuravam dar um sentido a um conjunto de informações, de repente, click! Viraram conhecimento.

Esse momento mágico é que devia ser o objetivo de qualquer escola. Ensinar a aprender. Ensinar a transformar informação em conhecimento e conhecimento em ação, que é o próximo passo.

Qual o objetivo do ensino regular? Preparar a pessoa a viver em sociedade, com um conjunto de conhecimentos que permita a ela se inserir nesse ambiente, se relacionar, produzir, consumir, enfim, viver!

Várias são as funções básicas para que isso seja possível. Uma delas é a comunicação, o uso da linguagem para exprimir idéias e sentimentos e compreende-los. Outra é a matemática. A correlação quantitativa das coisas e eventos. Outra mais, a história. O relato dos o quês e por quês que trouxeram o mundo em geral e o nosso país em particular até aqui.

Outra, as Ciências, tratando da natureza, do ser humano e das suas interrelações nos níveis  químicos, físicos e biológicos. E o nosso ambiente? A Geografia, a ecologia, e as relações sociais.

Esse entendimento, que deveria ser primário, talvez não seja reconhecido pelos alunos como o objetivo do aprendizado. Talvez para eles o mais correto seria dizer: eu estudo para passar, ou estudo para me formar, ou estudo para ter um emprego e ganhar dinheiro.

A finalidade básica do aprendizado foi esquecida e mais do que isso foi deturpada. O estudo virou uma obrigação desagradável, como também o trabalho. Não precisa ser assim. Tanto um (estudo) quanto outro (o trabalho) devem ser atividades prazeirosas. O aprender nunca é chato. Estudar, sim, pode ser.

Imaginem um indiozinho há 500 anos. Quando ele saia com o pai, para aprender a caçar ou pescar, o que era isso? Uma atividade lúdica onde a finalidade era bem clara e que, assim que concretizada, habilitaria o jovem índio para o futuro.

Essa correlação se perdeu atualmente em função da variedade e complexidade das informações e conhecimentos que temos disponíveis para nós e que precisam ser usadas para produzirem informações, ações e conhecimentos que poderemos usar e vender para o nosso sustento.

Alunos, pais e professores, devem descobrir a forma de fazer com que nossos jovens sintam como o jovem índio que aquele aprendizado tem valor e, além disso é gostoso.

Essa deve ser a nossa busca.

Nossos jovens que estão hoje na faixa do vestibular, em torno dos 18 anos, trabalharão cerca de 50 anos até a aposentadoria, se até lá ainda existir essa figura. Nesses 50 anos, em média trocarão de profissão pelo menos meia dúzia de vezes. Serão técnicos do assunto A, depois gerentes, depois o assunto A vai virar B, a tecnologia criará C que derivará em D e assim sucessivamente.

O aprendizado na faculdade estará tão datado quanto um litro de leite no mercado. Teremos prazo de validade para o nosso conhecimento, que estragará se não for consumido a tempo, ou reciclado.

Temos a oportunidade agora com a Internet. As informações estão lá. Nunca antes pudemos estabelecer uma correlação tão forte quanto agora, entre o que podemos aprender e como podemos aplicar em nossa vida. Muitas das profissões hoje em dia (e cada vez mais) são substancialmente baseadas em informações e o seu tratamento. São o mundo dos bits (jornalismo, direito, tradução, pesquisas, economia, administração ..). Essas profissões serão quase que totalmente exercidas via Internet. Nas outras, que tratam do mundo físico (medicina, engenharia…), o componente  informação será cada vez maior.

Precisamos aprender sobre processos e projetos independente de “para que”. Precisamos aprender sobre clientes e fornecedores independentes de quais. A metodologia e a tecnologia empregada vai ser a do momento. Não podemos nos apegar a nossa profissão original porque não sobreviveremos. Vamos procurar sempre o porque das coisas e saber que o “o que “ e o “como” são circunstâncias.

Vamos aprender sobre pessoas, relacionamentos e comunicação. Entender o que motiva e o que afasta. Entender que apenas duas emoções movem a humanidade. O amor (prazer, satisfação, felicidade) que faz com que procuremos nos aproximar e o medo (dor, raiva) que faz com que procuremos nos afastar.

Aprender o que é natural e o que é cultural. Os dois são importantes. Comer é natural. Comer com talher é cultural. Necessidades fisiológicas são naturais. Usar o banheiro é cultural. Sexo é natural. Com camisinha é cultural. Entender que o cultural é vinculado ao tempo em que a ação se situa. O conceito de certo e errado e bem e mal é cultural e depende do que a sociedade combinou por meio de constituição, leis, portarias, regulamentos, códigos, acordos etc.

Quando será que nossos jovens vão aprender dessa maneira?

  • Paulo Barreira Milet é Bacharel em Matemática pela UnB, com MBA em Adm. Pública pela FGV-Rio. Especialista em EaD e consultor em gestão, é Diretor da INLAGS ACADEMY. VP do Conselho de Inovação e Tecnologia da ACRJ.
  • Sócio fundador Inlags Academy
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